Profetas do amor e servidores da reconciliação

P. Victor de Oliveira Barbosa, SCJ

O número 7 da Regra da Vida representa um dos textos mais significativos na codificação do patrimônio carismático dehoniano.

De seus religiosos,
Padre Dehon espera
que sejam profetas do amor
e ministros da reconciliação
da humanidade e do mundo,
em Cristo (cf. 2Cor 5,18).
Dessa forma, comprometidos com Ele,
para remediar o pecado e a falta de amor
na Igreja e no mundo,
prestarão, com toda a sua vida,
suas orações e trabalhos,
seus sofrimentos e alegrias,
o culto de amor e reparação
que seu Coração deseja
(cf. NQT XXV, 5).

Um cotejo entre a tradução brasileira das Constituições e o texto original francês aponta uma substancial diferença em uma expressão que se tornou clássica na identidade dehoniana: “ministros da reconciliação”! No texto francês se lê: “prophètes de l’amour et des serviteurs de la réconciliation”, enquanto na versão brasileira encontramos: “profetas do amor e ministros da reconciliação”. Embora o texto bíblico que sirva de origem para esta expressão – 2Cor 5,18 – geralmente seja traduza por “ministros da reconciliação” (do grego: διακονίαν τῆς καταλλαγῆς), a expressão escolhida e discernida pelos grupos capitulares (cf. Chiarello, 2000, p. 18-20) que redigiram as Constituições foi “servidores” e não “ministros”.

A distinção entre servo e ministro parece residir na transição da identidade existencial para uma função autorizada. O servo (doulos) carrega uma identidade espiritual de pertença absoluta a Deus. Trata-se de uma condição de entrega total (oblação) e dependência amorosa: Maria que se apresenta como  “serva” e Paulo se intitula “servo de Jesus Cristo”. Por outro lado, o ministro (leitourgos ou oikonomos), embora guarde o “espírito de serviço”, aponta para um sentido – não exclusivo – de ofício sagrado com uma autoridade delegada pela Igreja e por Deus. Portanto, a primeira expressão – servidor, servo – é mais adequada para traduzir a identidade carismática de religiosos dehonianos.

Entrando no coração do texto, Cst 7 sintetiza a missão dos religiosos do Sagrado Coração como participação na própria missão de Cristo, que esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo” (Fl 2,7). O texto afirma que “de seus religiosos, Padre Dehon espera que sejam profetas do amor e servidores da reconciliação da humanidade e do mundo, em Cristo” e, assim, indica uma vocação que não se limita à santificação pessoal, mas está aberta à transformação evangélica da Igreja e da sociedade. A citação de 2Cor 5,18 – “Ora, tudo vem de Deus, que, por Cristo, nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação” – coloca essa missão no centro do Mistério Pascal, onde Cristo reconcilia o mundo com o Pai e faz de seus discípulos servidores da reconciliação.

Como Chiarello aponta em seu comentário sobre a Regra de Vida (cf. 2000, p. 18-20), o texto de Cst 7 é resultado de uma maturação significativa na redação. As diferentes versões mostram a transição de expressões como “artesãos da reconciliação” ou “ministros da reconciliação” para chegar à formulação atual “servidores da reconciliação”, que enfatiza o caráter evangélico da humildade e do serviço. Igualmente significativa é a conclusão, que fala do “culto de amor e reparação que seu Coração deseja”, uma expressão profundamente dehoniana, retirada das Notes Quotidiennes do Fundador (cf. NQT 25/3), que relembra o desejo do Coração de Cristo de encontrar homens capazes de responder ao seu amor oferecendo suas vidas.

Em sua leitura teológico-espiritual do número 7 do texto da Regra de Vida, Manzoni destaca a importante evolução teológica entre as Constituições anteriores e as atuais, aprovadas em 1982 (cf. 1991, p. 32-34). A reparação não é mais interpretada principalmente como compensação por ofensas contra Deus, mas como participação na obra salvífica de Cristo e solidariedade concreta com a humanidade ferida. Por essa razão, a Regra afirma que os religiosos são chamados a “remediar o pecado e a falta de amor na Igreja e no mundo”. A reparação, portanto, assume uma dimensão eclesial, social e missionária: significa compartilhar o peso do pecado do mundo, promover a reconciliação, construir relações fraternas e testemunhar a caridade de Cristo em situações de sofrimento e injustiça. Para o dehoniano, a adoração também não se limita a práticas devocionais, mas envolve “toda a sua vida, suas orações e trabalhos, seus sofrimentos e alegrias”, tornando a existência diária uma oferta agradável a Deus.

Carminati aprofunda essa perspectiva ao mostrar a ligação entre adoração e missão (cf. 1980, p.13-15). Para Padre Dehon, a adoração eucarística é a escola onde os “profetas do amor” são formados: do encontro com Cristo nasce a capacidade de servir à reconciliação e promover o Reino de seu Coração na história. Não há oposição entre contemplação e ação; pelo contrário, o primeiro alimenta o segundo. O amor contemplado na Eucaristia torna-se um compromisso concreto com a promoção humana, a justiça social e a paz, para que o Evangelho realmente alcance a vida das pessoas. Por isso, a Regra da Vida afirma mais adiante, no número 31, que a adoração eucarística é, para os dehonianos, “um autêntico serviço de Igreja”, referindo-se às notas do Padre Dehon (cf. NQT 6/51).

Por fim, podemos dizer que o número 7 da Regra da Vida SCJ mantém uma forte atualidade pastoral. Em um mundo marcado por divisões, violência e individualismo, ela convida todo dehoniano a ser um sinal crível do amor misericordioso de Cristo. Ser “profetas do amor” significa proclamar com palavra e vida que a caridade é mais forte que o ódio; ser “servidores da reconciliação” significa construir comunhão, curar feridas e acompanhar as pessoas rumo ao encontro com Deus. Nessa perspectiva, podemos deduzir a reparação como uma espiritualidade profundamente evangélica, que une contemplação, oferta e serviço, tornando toda a vida um autêntico “culto de amor e reparação” oferecido junto com Cristo para a salvação do mundo.