P. Victor de Oliveira Barbosa, scj
A Devoção ao Sagrado Coração de Jesus é a primeira obra espiritual escrita por Padre Léon Dehon. Publicada em Paris, em 1887, a obra reúne o discurso pronunciado por Padre Dehon na Basílica de Saint-Quentin, em 12 de junho de 1885, por ocasião da solenidade do Sagrado Coração de Jesus. A conferência revela um texto cuidadosamente elaborado no qual, muito antes de uma sistematização magisterial sobre a devoção ao Coração de Cristo, que só virá com a encíclica Haurietis Aquas (1956) do Papa Pio XII, o orador propõe os fundamentos bíblicos, o desenvolvimento histórico e as incidências pastorais dessa devoção.
Inspirando-se na imagem bíblica do fogo perpétuo do altar, no livro do Levítico, o autor apresenta o Coração de Cristo como a fonte do amor divino que deve permanecer continuamente aceso no coração dos cristãos: “O fogo que consome o holocausto sobre o altar não se apagará jamais. Cada manhã o sacerdote lhe acrescentará mais lenha. Sobre ele disporá o holocausto e nele queimará as gorduras dos sacrifícios de comunhão” (Lv 6,5). Esse fogo simboliza a adoração e o amor que o Coração de Jesus constantemente presta ao Pai. Padre Dehon anuncia o fogo do qual Jesus fala no evangelho de Lucas, um versículo frequentemente adotado pelo Fundador: “Eu vim trazer fogo à terra, e como desejaria que já estivesse aceso!” (Lc 12,49).
A obra se organiza em três partes. A primeira, “O Sagrado Coração de Jesus é o dom do nosso tempo”, constitui o núcleo da reflexão. Nela, Padre Dehon propõe uma original interpretação da história da espiritualidade cristã. Segundo ele, em cada época o próprio Cristo suscita uma devoção predominante para responder às necessidades espirituais da Igreja. Nos primeiros séculos, destacou-se a figura do Bom Pastor; após a paz constantiniana, a Cruz tornou-se o grande símbolo da fé; na Idade Média, a centralidade da Eucaristia alimentou a vida cristã. A devoção ao Sagrado Coração, por sua vez, aparece como a síntese dessas tradições, pois recorda simultaneamente a Encarnação, a Redenção e a presença eucarística, revelando, acima de tudo, o amor infinito de Cristo pela humanidade. Para Padre Dehon, trata-se do “último esforço do amor” de Jesus para despertar nos fiéis uma resposta de amor, reparação, confiança e disponibilidade para a missão.
A segunda parte, “O Sagrado Coração, a graça da França”, situa historicamente essa devoção no contexto francês, especialmente a partir das revelações a Santa Margarida Maria Alacoque, em Paray-le-Monial (1673-1675). Padre Dehon interpreta a difusão da devoção como uma vocação particular da França, chamada a irradiá-la para toda a Igreja, relacionando-a também ao contexto de crise política, social e religiosa vivido pelo país no século XIX.
Na terceira parte, “O Sagrado Coração, graça dessa diocese”, tratando-se de um discurso proferido na basílica de Saint-Quentin, o autor aplica essa mesma perspectiva à diocese de Soissons e à cidade de Saint-Quentin. Padre Dehon destaca a história cristã da diocese e convida os fiéis a fazerem da devoção ao Coração de Jesus um princípio de renovação pastoral, missionária e espiritual.
Embora marcada pelo contexto histórico e eclesial de sua época, a obra conserva notável atualidade. A intuição central de Padre Dehon consiste em apresentar o Coração de Cristo como expressão máxima do amor misericordioso de Deus e como princípio de transformação pessoal e social. Tal perspectiva da devoção será assumida pelo ensino da Igreja posteriormente, e particularmente recuperada pela encíclica Dilexit nos (2024) do Papa Francisco. Compreendida como expressão do amor humano e divino de Jesus, a devoção responde aos desafios da indiferença religiosa, da fragmentação das relações e da cultura de violência que marcam os nossos tempos. A devoção proposta por Padre Dehon continua interpelando os cristãos a cultivar uma espiritualidade fundada no amor, na reparação entendida como solidariedade com os que sofrem, na compaixão e no compromisso com a construção de uma sociedade reconciliada.
Nesse sentido, mais do que um marco histórico na vida de Padre Dehon como autor espiritual, a obra A Devoção ao Sagrado Coração de Jesus, infelizmente ainda não publicada em português, permanece um convite a reacender, na Igreja e no mundo, o “fogo” do amor de Cristo que, segundo o próprio Padre Dehon, é capaz de renovar os corações e a história.