P. Renato Vieira Lima (BRM)
A primeira parte das nossas Constituições é intitulada como “Segundo o carisma do Fundador” e trata do carisma suscitado pelo Espírito na vida de Padre Dehon que fez com que fundasse nosso Instituto e que faz, ainda hoje, com que, em fidelidade dinâmica, lhe sejamos fiéis.
O número 4 das nossas Constituições fala-nos particularmente da sensibilidade de Padre Dehon ao pecado, definindo-o como “recusa ao amor de Cristo”.
Padre Dehon
é profundamente sensível ao pecado
que enfraquece a Igreja,
sobretudo quando cometido
por almas consagradas.
Conhece os males da sociedade;
estudou cuidadosamente suas causas
no plano humano, pessoal e social.
Mas percebe que a causa mais profunda
dessa miséria humana
está na recusa ao amor de Cristo.
Atraído por esse amor menosprezado,
quer corresponder-lhe
por uma união íntima
com o Coração de Cristo
e pela instauração do seu Reino
nas almas e na sociedade.
A apresentação da realidade do pecado, nas Constituições, não está dotada de uma postura fatalista ou pessimista, mas como um problema impostado que exige uma resposta contundente. Se se reconhece o pecado, ou a “recusa ao amor de Cristo”, como o principal dos males do tempo presente, ou como “a causa mais profunda dessa miséria humana”, deve-se dizer que a solução para ele está justamente na acolhida do amor: “quer [Padre Dehon] corresponder-lhe por uma íntima união […]”.
Dentre as muitas notas marcantes de Cst 4, propusemo-nos a evidenciar três elementos mais relevantes: a) a sensibilidade ao pecado; b) dentre as diversas causas dos males da sociedade, a recusa ao amor de Cristo; c) a união íntima com o Coração de Cristo.

Quando dizemos que Padre Dehon é “profundamente sensível ao pecado que enfraquece a Igreja”, estamos diante de duas considerações: a de que é possível encarar o pecado com maior ou menor sensibilidade; e a de que o pecado enfraquece o corpo místico da Igreja.
Para Padre Dehon, o pecado é a ruptura da comunhão com Deus e o fechamento no próprio orgulho, que enfraquece o amor: “é bem claro que o principal obstáculo à vida de amor é o pecado. Pecar e afastar-se do amor de Deus é a mesma coisa. O pecado mortal destrói o amor; o pecado venial diminui-o. É preciso voltar todos os dias ao nosso Pai celeste pelo arrependimento, a conversão, a penitência” (VAM 265).
Marcado também pela teologia do seu tempo, após as aparições do Coração de Jesus à Santa Margarida Maria, pela preocupação para com o exercício do ministério sacerdotal e o cumprimento dos deveres por parte dos religiosos, frequentemente Dehon trata da santidade das almas que são consagradas a Deus.
“É preciso, portanto, rezar pelos sacerdotes e, na medida do possível, ajudá-los na sua santificação. A Igreja dirige muitas vezes a Deus esta oração: Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra (Sl 104,30). O Espírito Santo foi enviado. Não é Ele que falta; infelizmente não é recebido. Em Belém, Nosso Senhor não encontra lugar na hospedaria. O Espírito Santo nem sempre encontra lugar nas próprias almas consagradas. Elas estão todas invadidas pelas coisas da terra e, para delas se desembaraçarem, seria preciso coragem. O respeito humano, a indolência, o apego desordenado àquilo que satisfaz a natureza e os sentidos, o medo dos esforços, o horror à cruz sob todas as suas formas, tais são os principais obstáculos” (DSP 17).
Quando dizem as Constituições que o pecado enfraquece a Igreja, reconhecem que, assim como há uma solidariedade no bem, que se dá justamente na mística da comunhão eclesial, há também uma coparticipação no pecado e uma consequência do pecado pessoal que se estende à vida social e fere a própria participação na ontologia da Igreja; fica clara, neste sentido, a evidência da eclesiologia paulina, segundo a qual “se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele” (1 Cor 12,26).
O conceito de pecado social é recente, fortalecido sobretudo na teologia dos séculos XX e XXI, como está expresso no Catecismo: “Os pecados provocam situações sociais e instituições contrárias à Bondade divina; as “estruturas de pecado” são expressão e efeito dos pecados pessoais e induzem as suas vítimas a que, por sua vez, cometam o mal. Constituem, em sentido analógico, um “pecado social” (CEC 1869).
Entretanto, Padre Dehon já falava, em seu tempo, da gravidade moral das “injustiças sociais”. Entendia o pecado muito além do conceito estrito de pecado pessoal. Foi capaz de analisar com cuidado a realidade da França e do mundo de sua época, especialmente considerando a crise religiosa que se instaurou na Europa após a Revolução Francesa (1789), o advento de um liberalismo anticlerical, a ascensão do materialismo, e a questão operária atrelada às desigualdades sociais. É este pecado estrutural, que nasce da inimizade com Deus, da “recusa ao amor de Cristo”, a causa de todos os males: “pelo pecado, o homem afasta-se do seu Deus para se estabelecer na independência e bastar-se a si mesmo” (VAM 267).
Se o pecado apresenta uma inimizade para com o amor de Deus, a união de amor é a via através da qual, em Padre Dehon, os laços com Deus são reatados, o que poderia ser compreendido como uma conversão total a Deus. Neste sentido, são necessários dois movimentos: um, no nível pessoal da aceitação do amor de Deus numa relação íntima com Ele; e o outro, no compromisso com a instauração do Reino de Cristo nas almas e nas sociedades.
Neste sentido, um dehoniano compreende que a união de amor corresponde a uma “adesão aos mistérios e aos estados” de Cristo, sempre atuais para nós […]. [A união] é a fé entendida no sentido bíblico de doação total do nosso ser, que nos abre para o amor gratuito e salvífico de Cristo e que Padre Dehon contempla no sinal do Lado e do Coração transpassado” (DEH1985-04-PT/9).
Por outro lado, o Reino do Coração de Jesus é a vontade de Deus sendo realizada em nível pessoal e social, nas associações, nas escolas, nas famílias, no apostolado católico em diálogo com a sociedade e com cada tempo. É a instauração do Reino, atrelada à união íntima, que é capaz de empreender a acolhida do amor e uma resposta de disponibilidade e generosidade para com ele. Somente o amor, como ato seguido ao da reparação, que reconcilia o ser humano com Deus.
Concluindo, em Cst 4, lemos o pecado como o drama decisivo da “recusa ao amor de Cristo”, que enfraquece a Igreja e se desdobra também em misérias humanas pessoais e sociais. Em seguida, abordamos três eixos: a sensibilidade espiritual com o pecado no coração da Igreja, o discernimento de sua causa mais profunda e a resposta dehoniana: corresponder ao amor menosprezado por uma união íntima com o Coração de Cristo e pela instauração do seu Reino nas almas e na sociedade.