P. Victor de Oliveira Barbosa, scj
O amplo subtítulo da obra O Ano com o Sagrado Coração (ASC), de Padre Dehon, já indica a intenção da obra e o seu público: meditações para todos os dias do ano, segundo o espírito do Sagrado Coração, de acordo com o Ordo Litúrgico e as festas dos principais santos, para o uso dos eclesiásticos, dos religiosos e das pessoas piedosas. Publicada em dois volumes pelo editor Casterman, em Tournai e Paris, é certamente a mais volumosa das obras espirituais: ao todo, são 1333 páginas. O Fundador escreveu o prefácio no dia 3 de outubro de 1909. No entanto, a publicação foi adiada até depois da guerra, em 1919.
A composição de O Ano com o Sagrado Coração foi longa. Já em 8 de março de 1888, no seu Diário, Padre Dehon expressou seu desejo de compor um ano de meditações, esboçando sua orientação geral e seu plano geral, percorrendo o ano litúrgico como o desdobramento dos mistérios de Nosso Senhor: “Gostaria que meditássemos incessantemente sobre Nosso Senhor e sua vida. Se eu tivesse tempo para escrever um livro de meditações, após algumas meditações sobre os fins últimos, que poderiam servir para um retiro, eu dividiria o ano de acordo com os mistérios de Nosso Senhor, mais ou menos na seguinte ordem” (NQT 4/118). Ele então esboça, mês a mês, a disposição que pretende seguir, desde o Advento e o Natal até novembro, a morte, o céu…: basicamente a ordem do ano litúrgico.

Coleção O Ano com o Coração de Jesus publicada em português pela Editora SCJ
Este projeto é muito importante para o Fundador, que o carrega consigo durante anos, trabalhando nele nos poucos momentos livres que consegue entre atividades exaustivas. Em junho de 1890, ele anota no Diário: “Estou trabalhando na redação das meditações e na cópia do Diretório. É o tesouro da Obra que cresce. Será a ocupação de todo o meu tempo livre durante vários meses. Encontro nisso um poderoso alimento espiritual para mim mesmo” (NQT 5/29). Quase vinte anos depois, em novembro de 1908, novamente ele informa que continua trabalhando na redação dessas meditações, dia após dia: “Um trabalho calmo e recolhido… Este trabalho é uma graça, encontro nele um grande proveito espiritual” (NQT 24/45). 1908 é o quadragésimo aniversário de sua ordenação sacerdotal. Ele confia assim a viva impressão que sente: “Quarenta anos! É um mundo inteiro. Quantas graças recebidas!… Como eu deveria estar consumido em Nosso Senhor! Corro ao pensar nas graças perdidas. Como pude permanecer tão pobre vivendo em meio a tantas riquezas espirituais! Fui como o filho pródigo” (NQT 24/50). São confidências que confirmam a estreita ligação dessas meditações com a experiência espiritual do Fundador.
Ele inicia a impressão do livro em janeiro de 1913: “Que este livro, que sem dúvida será o meu último, contribua para fazer amar o Sagrado Coração!” (NQT 35/1). Mas estoura na Europa a guerra de 1914-1918, que o obriga a interromper a edição. Em 10 de abril de 1917, refugiado na Bélgica, Padre Dehon escreve uma carta a Padre Falleur demonstrando sua impaciência pela demora: “Casterman imprime meu Ano de meditações há 10 anos. Tal lentidão é única na história. Será que ele conseguirá terminar rapidamente após a guerra?” (1LD 47740). Só em 1919 será concluída a publicação dos dois volumes que, na realidade, não serão a última publicação desse escritor incansável, movido até o extremo de suas forças pelo zelo de se informar e comunicar, com a intenção de “fazer amar o Sagrado Coração”.
A obra propõe meditações, seguindo o esquema da escola francesa de espiritualidade e baseando-se no método inaciano: cada meditação parte sempre de um versículo bíblico associado ao tema a ser meditado, desenvolve três pontos de meditação e conclui com uma resolução (aplicação prática) e um colóquio de oração. É o esquema clássico da tradição monástica: a lectio divina. De fato, Padre Dehon escreve no prefácio da obra que, para viver a devoção ao Coração de Jesus, “o meio mais adaptado é meditar todas as manhãs segundo o espírito do Sagrado Coração… o espírito da caridade, da reparação e do sacrifício. Os meios a serem utilizados são, sobretudo, a pureza de consciência, o recolhimento, a contemplação dos mistérios de Nosso Senhor, que serão a nossa preocupação diária e o objetivo das nossas resoluções. Seguindo o ano litúrgico com a Igreja, conformar-nos-emos ao procedimento de Nosso Senhor, que normalmente concede as suas graças em relação aos mistérios que a Igreja celebra” (Prefácio).
Assim, ao retomar O Ano com o Sagrado Coração, podemos nos unir a Padre Dehon em sua oração diária, em estreita relação com a oração oficial da Igreja, no Ofício Divino e na liturgia eucarística, e assim alimentar nossa vida com o que alimentou a sua: a união com Jesus, o Verbo de Deus contemplado na riqueza inesgotável de sua Encarnação, dos “mistérios” de sua vida entre nós. Essa obra, publicada recentemente em português pela Editora SCJ, em quatro volumes, é uma pérola espiritual para a vida quotidiana de todo aquele que se inspira em Padre Dehon para viver o amor ao Sagrado Coração de Jesus. Que tal dedicar esse ano de 2026 ao Coração de Jesus, seguindo cada dia as meditações do Fundador? Leia e reze com O Ano com o Sagrado Coração.