P. Felipe Francisco Xavier LAMOUR (1843-1921) – Pioneiro discreto e perseverante

P. Emerson M. Ruiz, scj

 

Nascimento: 29.08.1843 (Landrecies)

Ordenação sacerdotal: 1868

Ingresso:  21.11.1879

Primeira profissão:   07.01.1881

Profissão perpétua: 17.09.1886

Falecimento:  03.05.1921

 

Filipe Lamour nasceu em Landrecies – cidade situada 50 quilômetros ao norte de São Quintino – e tinha a mesma idade que Padre Dehon e P. Rasset. Ingressou nos Oblatos em 1879 no seu 11° ano de ministério presbiteral na Diocese de Soissons (cf. NHV 14/20), onde era capelão de uma casa religiosa feminina.

Os Arquivos Dehonianos não dispõem de abundantes informações sobre P. Lamour e Padre Dehon reconhece que ele não esteve tão envolvido na vida da Congregação (cf. NQT 44/12). No entanto, alguns fatos sobre sua vida são interessantes e revelam projetos do início da Obra. Um fato particular é a vocação de Lamour, que entrou na obra já sacerdote, assim como Rasset e outros. Isto revela que o jovem instituto não atraía somente jovens, mas sacerdotes que enxergavam no projeto de Padre Dehon uma vida apostólica integrada a uma sólida vida espiritual.

A experiência pastoral prévia de P. Lamour foi importante, pois em 1880, Dom Thibaudier teve dificuldades para encontrar religiosos para administrar a Escola São Medardo para surdos-mudos e apelou para Padre Dehon (cf. NHV 14/72), que enviou P. Lamour e dois noviços (!) – Falleur e Philippot – para conduzirem a obra social por aproximadamente um ano. Este episódio retrata uma faceta da relação do jovem instituto com a Diocese de Soissons: nas emergências, o bispo apelava para os Oblatos. O nascimento da congregação parece ter seguido este “padrão”: a aprovação do início da Obra foi condicionada à fundação de um colégio necessário à diocese. Mais tarde (1886), logo após o Consummatum est, diante da ausência de padres para assumirem as missões diocesanas, novamente o bispo convoca Padre Dehon (cf. NQT 3/66; NHV 15/45).

Contemplando o auxílio à Escola São Medardo, é surpreendente que um grupo de três noviços começasse a dirigir uma casa para surdos-mudos, um trabalho muito intenso e que certamente consumia o tempo para a vida de oração. Padre Lamour, embora não tivesse feito os votos, era o superior.

P. Felipe Francisco Xavier LAMOUR (1843-1921)
Pioneiro discreto e perseverante

Os arquivos da Congregação conservam uma carta de dezembro de 1880, quando estava na casa dos surdos-mudos, para o noviço Falleur. A carta é uma resposta aos cumprimentos que Falleur lhe havia enviado na festa de São Francisco Xavier, seu onomástico. Lamour explica que Francisco Xavier era um mártir das cruzes cotidianas que o Senhor envia. Por isso, ele pede orações, para obter a graça de sofrer este martírio na obra onde trabalha. “Se são necessários apenas alguns minutos para sofrer o martírio da fé, às vezes é necessária uma vida inteira para sofrer o martírio das cruzes do dia a dia” (A.D. B. 19/4.7 inv. 252.01). Em certo sentido, a carta revela como o tema do “voto de vítima” era presente nas reflexões dos primórdios e configurava a prática pastoral dos primeiros Oblatos.

Um segundo projeto no qual Lamour esteve envolvido foi o Noviciado na Holanda (Sittard), onde  foi Superior e Mestre de Noviços de 1883 até outubro de 1885. Como tal, ele orientou o P. André Prévot quando entrou no Instituto (maio de 1885). Várias cartas de Lamour a Falleur são deste período: em fevereiro de 1884, durante o ingresso dos primeiros noviços, ainda no contexto ‘Consummatum est’, ele escreveu: “O abandono é o grande segredo da paz, da verdadeira devoção ao Sagrado Coração de Jesus e de nossa santa vocação. Não se pode viver de nada além do abandono, na situação muito delicada e muito difícil em que nos encontramos” (A.D. B. l9, 4).

Naquele período, o P. Falleur estava em Fayet, como sucessor de P. Captier e o julgamento de Lamour sobre a escola era muito severo: “São Clemente perdeu o espírito de sua vocação… estes são rapazes que se acham piedosos e talvez até contemplativos, mas se esquecem que são orgulhosos e vaidosos” (A.D. B. l9, 4).

A partir de outubro de 1885, P. Lamour foi sucedido pelo P. André Prévot em Sittard (cf. LD 58405 [1886]). Foi então morar na Casa Mãe, participando do I Capítulo Geral (1886), quando foi eleito Conselheiro, permanecendo no cargo até 1889.

Em 1890, P. Lamour esteve à frente de um belo projeto que, infelizmente, não prosperou: a abertura de uma casa na Terra Santa, para onde viajou no início daquele ano. Padre Dehon sonhava com ao menos uma casa de adoradores em Betânia ou Nazaré e por isso entrou em contato com Amédée de Piellat (cf. NQT 5/35), um católico francês que ajudava congregações a iniciar comunidades na Palestina (cf. NQT 5/196). Lamentavelmente, o projeto não se desenvolveu como planejado.

 

  1. Lamour foi capelão por muito tempo – até o fim da I Guerra Mundial – em Villepinte, uma casa nos arredores de Paris, que pertencia às Irmãs Auxiliadoras de Maria e acolhia moças que haviam passado por diversas dificuldades, especialmente sociais, na capital da França. Não havia ali uma comunidade religiosa e P. Lamour morava sozinho, mas era uma espécie de capelania confiada aos Padres do Coração de Jesus, pois após a morte de P. Lamour (1921), este apostolado foi delegado a outro membro do instituto. Entre 1911 e 1912 temos algumas cartas que ele enviou ao fundador. Neste longo período de trabalho em Villepinte não há um contato estreito com outros projetos da Congregação.

A partir de 1909, P. Lamour teve problemas de saúde (cf. 1LD 97270). Faleceu em 3 de maio de 1921. Padre Dehon escreveu: “No dia 3 perdemos o P. François Xavier, um dos primeiros Padres. Ele trabalhou muito, mas um pouco fora de nossas casas. Ele era um homem de fé ardente, que se apegava demais às manifestações místicas contemporâneas, onde nem tudo vem de Deus. Ele morreu em Quévy, onde eu assisti a seu funeral…” (NQT 44/12). A excessiva inclinação por questões místicas, citada pelo fundador, havia sido uma das causas de seu afastamento do noviciado de Sittard e é um tema que aparece nas cartas do P. Lamour e também na correspondência de Padre Dehon. Em uma carta do Fundador à Irmã Maria de Santo Inácio (!!), de 11 de maio de 1921, ele afirmou: “O padre François-Xavier era muito virtuoso, mas um pouco iludido” (1LD 23137  – 11.05.1921).

A vida de P. Lamour é uma grande ajuda para entender os primórdios da Obra: em primeiro lugar, revela uma atração que o projeto exercia sobre sacerdotes diocesanos. Em segundo lugar, alguns projetos apostólicos iniciais como a Obra São Medardo ou uma casa na Terra Santa. O fundador reconhece que P. Lamour era um homem dedicado às obras, mas não muito sintonizado com os passos do jovem instituto… Se, por um lado, não se envolveu profundamente na Obra como outros pioneiros, um elemento que merece reconhecimento é a perseverança de P. Lamour na Obra nos dois grandes obstáculos iniciais – o Consummatum Est (1883-1884) e a expulsão da França (1903). Estas adversidades contribuíram para o afastamento de não poucos religiosos, mas não de P. Lamour, e isso merece a devida atenção.