P. Émile Pierre de la Nativité BERTRAND

P. Emerson Marcelo Ruiz, scj

 

Nascimento: 17.11.1863 (Chémery-sur-Bar)

Ingresso: 03.06.1881

Primeira profissão: 08.06.1883

Profissão perpétua: 24.08.1888

Ordenação sacerdotal: 22.09.1888 (Soissons)

Falecimento: 31.05.1946 (Saint-Cirgues)

 

Émile Bertrand nasceu em Chémery-sur-Bar, em 17 de novembro de 1863. Entrou na Congregação em 3 de junho de 1881, recebeu o hábito em 1º de julho e fez a primeira profissão em 8 de junho de 1883. Professou perpetuamente em 24 de agosto de 1888 e foi ordenado sacerdote em 22 de setembro do mesmo ano.

No Instituto, Émile adotou o nome religioso de Pierre de la Nativité. No dia seguinte à primeira profissão, escreveu à Chère Mère contando que os novos professos haviam ido ao Santuário de Nossa Senhora do Sagrado Coração, em Sittard, para agradecer. Ali rezou pela aprovação da Congregação (estamos no contexto do Consummatum Est), chamada a dar “consolação e amor ao Coração de Jesus”, e pela chegada das Servas do Sagrado Coração ao noviciado de Sittard, como recorda P. Perroux (cf. STD 46.1, pp. 354ss). De um lado, esta carta indica a proximidade das duas congregações. De outro, mostra, da parte do P. Pierre, um forte vínculo afetivo com a congregação fundada por Padre Dehon, que ele manterá até o fim da vida.

Boa parte dos primeiros anos de seu ministério esteve ligada a Lille, cidade do norte da França e próxima à fronteira com a Bélgica. Em 1889, P. Bertrand foi escolhido para a capelania do Pensionato Saint-Pierre, dirigido pelos Irmãos das Escolas Cristãs. Mais tarde, tornou-se superior da comunidade e da casa de estudos, função que exerceu em dois períodos: 1894-1898 e 1900-1903. Muitos anos depois, forneceu a P. Ducamp informações sobre aquela experiência. Este texto se encontra na primeira biografia de Padre Dehon, de 1936. Considerava que o escolasticado, apesar da piedade e do bom espírito, carecia de homogeneidade e que sua reorganização permitiu uma formação clerical mais metódica (cf. Ducamp, 1936, p. 296ss).

A trajetória de P. Bertrand passa também por uma das crises mais delicadas dos primeiros anos da Congregação. Participou do III Capítulo Geral, em Fourdrain, em setembro de 1893. O P. Driedonckx o situa entre os religiosos próximos ao grupo do P. Germano Blancal, que questionava o governo de Padre Dehon. (cf. STD 51, p. 49).

Em 1896, durante o IV Capítulo Geral, em São Quintino, Padre Dehon anunciou que deixava o cargo de Superior Geral. Liderados pelo P. Prévot, a renúncia foi rejeitada por dezesseis votos contra seis. Entre os seis estavam Blancal, Paris, Delgoffe, P. Pierre Bertrand, Lobbé e Lecart (cf. STD 51, p. 63). P. Bertrand, portanto, participou da oposição ao governo de Padre Dehon naquele momento. Não sabemos, porém, quais críticas de Blancal ele assumia pessoalmente.

No ano seguinte, na célebre carta de 1897, parte da oposição propôs praticamente uma separação da Congregação. O memorando foi assinado por Blancal, Irénée Blanc, Lobbé, Delgoffe, Miquet, Bruno Blanc e Déal. P. Bertrand não assinou. Driedonckx observa expressamente que Bertrand, Paris e Lecart, embora antes tivessem apoiado Blancal, não aparecem entre os signatários (cf. STD 51, p. 85). Este dado é importante: P. Bertrand esteve na oposição, mas não há fundamento para afirmar que tenha acompanhado o grupo até a proposta de ruptura.
A legislação francesa de 1903 obrigou a Congregação a abandonar o escolasticado de Lille. P. Bertrand permaneceu na cidade com P. Weiskopf, numa modesta casa próxima ao Pensionato Saint-Pierre, continuando como capelão. Quando os Irmãos transferiram o pensionato para Froyennes, na Bélgica, em agosto de 1904, P. Bertrand os acompanhou e ali permaneceu ainda durante um ano (cf. Ducamp, 1936, p. 297).

A partir de 1910, foi superior da casa de Bruxelas e, entre 1911 e 1913, Conselheiro Provincial. Em março de 1913, a comunidade de Bruxelas escreveu a Padre Dehon uma afetuosa carta por ocasião de seus setenta anos. P. Bertrand, que assina como reitor, manifesta com os demais religiosos “filial veneração” e “sincera gratidão” ao Fundador (cf. AD B 17/3.11, inv. 141.11).

Primeira fileira (sentados, da esq. para a dir.): P. Berbach, P. Francois, P. Devillers, P. Mathias, P. Bourg.
Segunda fileira (em pé): P. Devraine, P. Granger, P. Bertrand, P. Lambert, P. Rattaire.
Terceira fileira (ao fundo): P. Pointeau, P. Delauzun, P. Jerusalem, P. Palladino.

Três meses depois, em 10 de junho de 1913, P. Bertrand foi nomeado Superior Provincial da Província Galo-Belga, sucedendo P. André Prévot (cf. NQT 35/37). Permaneceu no cargo até 1919. A nomeação é significativa: o religioso que havia participado da oposição em 1896 recebia, dezessete anos depois, uma das principais responsabilidades de governo da Congregação. Não sabemos quando ou de que modo as antigas divergências foram superadas, mas elas não se transformaram numa ruptura definitiva.
No VIII Capítulo Geral, realizado em Heer, próximo a Maastricht, em julho de 1919, P. Bertrand participou como Provincial e foi eleito Secretário Geral, cargo que exerceu até 1926 (cf. STD 51, p. 185). Nesse cargo, ele ajudou Padre Dehon na reorganização institucional pós-guerra. Depois da morte de Padre Dehon, participou do Capítulo Geral de 1926. Foi escolhido por unanimidade secretário da assembleia e tornou-se Primeiro Conselheiro Geral de P. Joseph Philippe (cf. STD 51, p. 212). Permaneceu Conselheiro Geral até 1931. Também esteve presente às exéquias de Padre Dehon, em São Quintino, em agosto de 1925 (cf. Ducamp, 1936, p. 555).

P. Pierre Bertrand morreu em Saint-Cirgues, em 31 de maio de 1946. Temos poucas informações sobre o período entre a conclusão de seu trabalho no Conselho Geral (1931) e seu falecimento. Pouco antes da morte, escreveu que não queria viver senão “de confiança” e que, se pudesse recomeçar a vida, viveria somente “de abandono confiante”. Em 23 de maio recebeu os últimos sacramentos, renovou seus votos e recomendou aos religiosos o “santo abandono”. O Mestre dos Noviços agradeceu-lhe o exemplo de oração e de fidelidade à Regra. No funeral, o Provincial o recordou como “um verdadeiro sacerdote do Sagrado Coração” e um dos primeiros discípulos de Padre Dehon (cf. In Unum, n. 1, jun. 1946).

A vida de P. Bertrand atravessou mais de sessenta anos da história da Congregação. Foi superior local, Provincial, Secretário Geral e Conselheiro Geral. Participou da oposição a Padre Dehon, mas não aderiu à proposta de separação de 1897 e, mais tarde, recebeu importantes responsabilidades no governo da Obra. Sua trajetória mostra que os primeiros anos da Congregação não foram feitos apenas de consensos, mas também de divergências sérias que foram superadas pelo propósito de reconstruir relações e de permanecer servindo à Obra.