Outubro e a vocação para o Apostolado do Sagrado Coração
Na teologia espiritual de Padre Leão Dehon, a devoção ao Coração de Jesus está muito além de uma bela intimidade que pode encerrar a fé em uma esterilidade egoísta. Para Padre Dehon, o amor contemplativo ao Lado Aberto do Crucificado traz em si uma exigência intrínseca de expansão: ele impulsiona a alma para o dinamismo do apostolado e da missão.
No início do décimo volume de Ano com o Coração de Jesus (consagrado ao mês de outubro), Padre Dehon escreve: “Não quero ser apenas, ó meu bom Mestre, um amigo, um devoto do vosso Sagrado Coração, quero ser o seu apóstolo. Quero trabalhar de todo o meu coração para fazer conhecer e honrar o vosso Sagrado Coração. Imagens, escritos, todos os meios de propaganda, eu os empregarei. É preciso que eu vos traga corações confiantes e amantes” (ASC 10/54).
Nesta passagem, que tem um caráter programático, o Fundador estabelece a ponte direta entre a vida interior e a difusão do Reino. Para Dehon, ser apóstolo do Sagrado Coração exige colocar “os escritos e todos os meios” à disposição da verdade e do amor que se manifestam no Coração de Cristo e que geram pessoas confiantes e “educadas para o amor verdadeiro” (Cst 95). A difusão e dilatação do Reino do Coração de Jesus deve acontecer “nas almas e nas sociedades”. Para Padre Dehon, não se trata da sociedade como uma massa informe, mas de cada pequeno fragmento social e comunitário – escolas, bairros, famílias, fábricas, etc. – que deve ser transfigurado por valores de uma nova humanidade.

É precisamente nesta intuição que o trabalho do CELDE encontra a sua justificativa teológica e pastoral. A pesquisa rigorosa, a tradução, a preservação e a divulgação das fontes espirituais e sociais do Padre Dehon não constituem um exercício de arqueologia histórica ou de erudição acadêmica, ainda que apaixonante, mas trata-se de um apostolado da inteligência e do coração.
Neste mês de outubro, apresentamos o décimo primeiro número do InFormativo CELDE, reunindo textos que nos ajudam a aprofundar a relação entre a experiência de fé e o compromisso apostólico.
Na seção Conhecendo a nossa Regra, o P. Yudistiro Adifitrityassanto (INA) apresenta o artigo “Cristo, a realização do mundo novo”, dedicado ao n. 10 das Constituições. A reflexão mostra como a obediência filial de Jesus iluminam a vocação dehoniana, articulando oblação e Reino de Deus.
Em Escritos do Fundador, o P. Victor de Oliveira Barbosa dá continuidade à apresentação de Coroas de Amor ao Sagrado Coração de Jesus, desta vez com o segundo volume, dedicado aos mistérios da Paixão.
Na seção Nossas origens, recordamos a trajetória do P. Arthur Paul de la Croix Delgoffe, um dos primeiros religiosos da Congregação. Sua dedicação à pregação e às missões populares, assim como as tensões vividas com o Fundador e o posterior caminho de reconciliação, permitem conhecer uma história em que o fervor apostólico das origens convive com as limitações humanas.
Por fim, em Atualidades, apresentamos a notícia da beatificação do P. Martino Capelli e o testemunho de sua entrega junto às vítimas da guerra. Registramos também a reflexão conduzida pelo P. Victor Barbosa na X Assembleia Provincial da BSP sobre a denominação oficial da Congregação, a formação sobre a vida e a espiritualidade de Padre Dehon realizada na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, no Méier, Rio de Janeiro, e a Semana de Formação para Neossacerdotes.
Que a leitura desta edição nos ajude a acolher o desejo expresso pelo Fundador: ser apóstolos do Sagrado Coração. Conhecer sua experiência, estudar seus escritos e revisitar nossas origens são caminhos para alimentar uma fé que se faz serviço. Que esse patrimônio inspire nossa presença nas comunidades e nosso compromisso com o Reino do Coração de Jesus nas almas e nas sociedades.
P.Emerson M. Ruiz, scj
Diretor do CELDE