P. Rodrigo Arruda, scj (BRE)
Prosseguindo com nossas reflexões sobre a Regra de Vida, neste mês falaremos sobre Cst 5.
Essa adesão a Cristo,
nascida do mais íntimo do coração,
realiza-se em toda a sua vida,
sobretudo no seu apostolado,
caracterizado por uma constante
atenção às pessoas,
em especial para com os mais desamparados,
e pela preocupação de remediar,
de maneira concreta,
as deficiências pastorais
da Igreja do seu tempo.
Tal adesão se exprime e se concentra
no sacrifício eucarístico,
a ponto de toda a sua vida se transformar
em missa contínua.
(cf. Couronnes d’amour, III, p. 199).
Este número, como já sabemos, está localizado na primeira parte denominada “Segundo o carisma do fundador” e na seção “Segundo a experiência de fé de Padre Dehon”, portanto trata-se de um número atrelado à vida de nosso fundador. Reforço isso porque o número começa com a expressão “Essa adesão a Cristo” e aqui não se trata da adesão que todos os cristãos devem fazer, mas da adesão a Cristo especificamente feita por Padre Dehon, fruto de uma atração ao amor de Cristo menosprezado e do desejo de corresponder por uma união íntima, conforme mencionado em Cst 4.
Essa adesão nasce do mais íntimo do coração. Não se trata de uma decisão superficial, de momento, sem ser pensada. Mas é expressão das palavras do evangelho: “Quem de vós, com efeito, querendo construir uma torre, primeiro não se senta para calcular as despesas e ponderar se tem com que terminar? […] Ou ainda, qual o rei que, partindo para guerrear com um outro rei, primeiro não se senta para examinar se, com dez mil homens, poderá confrontar-se com aquele que vem contra ele com vinte mil?” (Lc 14,28.31). Para que algo possa brotar do mais íntimo de nosso coração, devemos retirar aquilo que o sufoca desde a superfície até as camadas mais interiores. Tal processo de “limpeza” do coração deve ser vivido sobretudo, mas não exclusivamente, na formação inicial porque é durante essa fase que o vocacionado é chamado a aderir a Cristo.

“Jesus sem teto” – Timothy Schmalz.
Contudo, não se encerra na formação inicial. Na experiencia de fé de Padre Dehon, a sua adesão foi vivida em toda a sua vida “sobretudo no seu apostolado”. Desse modo, o apostolado dehoniano vem da adesão a Cristo que nasce no íntimo do coração. Em outras palavras, o apostolado dehoniano está intimamente associado à vida interior. Existe uma oração a Nossa Senhora do Silêncio que diz assim: “Faze-nos compreender que o apostolado, sem silêncio, é alienação, e que o silêncio, sem apostolado, é comodidade”.
O apostolado dehoniano, segundo Cst 5, é caracterizado “por uma constante atenção às pessoas, em especial para com os mais desamparados” e deve ser fruto de uma vida interior. O descuido com a vida interior impacta necessariamente o apostolado, correndo o risco de cair em alienação e ideologias. Mas também uma vida interior que não alcança as pessoas desamparadas escorrega facilmente num intimismo que foge da realidade. Jesus que passa a noite em oração (cf. Lc 6,12) é o mesmo que olha a multidão e sente compaixão (cf. Mt 9,36). O Padre Dehon que bebe da espiritualidade da escola francesa do Cardeal de Berulle (cf. Manzoni, Studia Dehoniana 26, 1991, p. 35) é aquele que vive uma dedicação apaixonada pela causa dos operários e que ajuda os sacerdotes em dificuldade (cf. Manzoni, 1991, p. 36-37). E mais: em Souvenirs, Carta Circular de 1912, ele afirma que espera o mesmo dos seus religiosos (cf. SVN 48).
Ademais, o apostolado dehoniano também tem sua “preocupação de remediar, de maneira concreta, as deficiências pastorais da Igreja do seu tempo”. Para isso, é necessário um olhar em duas vias. Saber olhar para dentro da Igreja como também olhar além da Igreja. Ter um olhar exercitado e perspicaz para “investigar a todo o momento os sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho” (GS 4).
A segunda parte de Cst 5 retoma a referência à adesão a Cristo, desta vez com dois verbos bem significativos para compreendermos mais profundamente: exprimir e concentrar. Literalmente, exprimir significa “apertar para fora, fazer esguichar” e concentrar significa “trazer a um ponto equidistante dos outros”. Isso nos diz que, por um lado, se quisermos extrair ao máximo (a ideia do verbo “exprimir”) o significado da adesão a Cristo chegaremos ao sacrifício eucarístico. Por outro lado, todos os significados dessa adesão conduzem ao centro (a ideia do verbo “concentrar”) que é o sacrifício eucarístico. E para Padre Dehon não se trata de apenas um ato devocional diário, mas é o verdadeiro ato de oblação proclamado nas palavras da doxologia Por Cristo, com Cristo e em Cristo (cf. Manzoni, 1991, p. 38) e vivido continuamente.
A Missa diária para o religioso dehoniano deve ser buscada e vivida na plena consciência que sem ele nada podemos fazer (cf. Jo 15,5). O nosso apostolado se torna alienante e vazio (ainda que tecnicamente bem executado) se não realizado a partir de uma adesão a Cristo nascida do mais íntimo do coração.