P. Yudis Adifitrityassanto (INA)
1. Nossa experiência de fé
Na Igreja, fomos iniciados
na Boa Nova de Jesus Cristo:
Nós temos reconhecido
o amor de Deus por nós
e nele acreditamos (1Jo 4,16).
Recebemos o dom da fé
que fundamenta nossa esperança;
fé que orienta nossa vida
e nos inspira a deixar tudo
para seguir a Cristo.
Em meio aos desafios do mundo,
devemos fortalecer essa fé
vivendo-a na caridade.
Com todos os nossos irmãos na fé cristã,
confessamos, pela força do Espírito,
que Cristo é Senhor,
no qual o Pai nos manifestou o seu amor
e que continua presente no mundo
para o salvar.
Ninguém pode dizer: “Jesus é Senhor”
a não ser no Espírito Santo (1Cor 12,3).
O enunciado “A nossa experiência de fé” é o título de Cst 9 e foi escolhido pela Comissão Preparatória do XVII Capítulo Geral (1977) para enfatizar que a vocação religiosa está profundamente enraizada numa experiência de fé concreta e vivida, refletindo diretamente a experiência espiritual pessoal de Padre Dehon. Isso estabelece uma ligação e uma continuidade com sua experiência de fé (Segundo o carisma do Fundador – Cst 1-8), mas evidencia também a especificidade da nossa própria experiência. Por outro lado, oferece uma visão fundamental das Constituições – e não apenas deste número isoladamente – como caminho de discipulado dos dehonianos, numa dinâmica de adesão à Pessoa de Cristo e de participação ativa na missão mais ampla da Igreja no mundo contemporâneo.
No coração de Cst 9 encontra-se o texto bíblico de 1Jo 4,16 – Nós temos reconhecido o amor de Deus por nós e nele acreditamos –, que define nossa experiência espiritual fundamental como o fato de termos conhecido e acreditado no amor que Deus tem por nós. O texto destaca três verbos significativos para descrever a dinâmica de uma experiência de fé: “conhecer”, como profunda experiência de vida; “acreditar”, como adesão pessoal radical; e “proclamar”, como realização ativa de uma missão apostólica. Essa dinâmica mostra que nossa fé consiste em uma existência formada e configurada em Cristo pelo Batismo e iniciada na vida nova segundo a “Boa Nova”, no seio da Igreja, que atua como sacramento visível que manifesta e torna operativo o amor de Deus pela humanidade. Essa “Boa Nova” assume definitivamente a forma de uma Pessoa: Jesus Cristo. Como membros da Igreja e participantes da vida do Corpo Místico de Cristo, partilhamos com Ele sua vida, missão, morte e ressurreição.

A partir dessa compreensão da vida nova em Cristo, Cst 9 estabelece a ligação orgânica entre as três virtudes teologais – fé, esperança e caridade: “Recebemos o dom da fé que fundamenta nossa esperança; fé que orienta nossa vida e nos inspira a deixar tudo para seguir a Cristo. Em meio aos desafios do mundo, devemos fortalecer essa fé vivendo-a na caridade”. Elas são forma fundamental de dar testemunho da Boa Nova. Para nós, a fé em Deus, que é Amor, constitui o fundamento de nossa esperança e o apoio que nos liberta da solidão humana e nos introduz permanentemente na comunhão com a vida divina. Essa fé deve ser continuamente consolidada pela vivência concreta da caridade, especialmente em meio às tentações, provações e desafios de uma sociedade secularizada. Em outras palavras, Cst 9 oferece uma perspectiva fundamental para nossos atos de amor: amamos nossos irmãos e irmãs simplesmente porque Deus nos amou primeiro. Assim, nossa dedicação concreta aos irmãos torna-se consequência lógica e necessária da experiência do amor de Deus que nos precede.
Essa experiência de fé constitui o princípio orientador fundamental da vida religiosa, inspirando profundamente os crentes a deixar tudo para seguir Cristo. Inspirando-se no chamado dos discípulos a partilhar a vida de Jesus e a serem enviados para participar de sua missão, a vida religiosa, como testemunho vivo da Boa Nova, não é compreendida primariamente como uma atividade de anúncio do Evangelho; antes, anunciamos o Evangelho precisamente porque seguimos Cristo, numa adesão radical que compromete toda a nossa vida.
Cst 9 conclui insistindo na confiança na ação poderosa do Espírito Santo. Confessar que “Jesus é o Senhor” é impossível sem o Espírito Santo (1Cor 12,3), evidenciando a dimensão carismática da nossa vocação religiosa: um puro dom de Deus, recebido para darmos testemunho em uma sociedade secularizada.
Nossa experiência de fé torna-se, assim, uma existência moldada pelo amor recebido, vivida na oblação e traduzida em missão.