P. Mathias Maria Orfila Legrand (1849-1925) – Fundador da Escola de São Clemente, devoto de Santa Teresinha

P. Emerson M. Ruiz, scj

 

Nascimento: 09.07.1849 (Caumont)

Primeira Profissão: 21.11.1881

Votos Perpétuos: 17.09.1886

Ordenação Sacerdotal: 29.06.1884

Falecimento: 13.08.1925 (Blaugies)

 

 O dia 4 de outubro de 1879 foi especial para nossa jovem Congregação. Nesta data, ingressaram dois postulantes que contribuíram muito com o desenvolvimento dos Oblatos: Mathias Legrand e Stanislaus Falleur. Acompanhemos a história do primeiro deles.

Sendo seis anos mais jovem que Padre Dehon, Orfila Legrand nasceu em 9 de julho de 1849, no departamento de Aisne e pertencia a uma família muito cristã. Ao final de seus estudos secundários, entrou no Serviço Público em Chauny. Soldado durante a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), foi salvo graças à proteção de São José. Após o término do conflito, retornou às finanças públicas em São Quintino. Seu irmão mais velho – Laurent-Arthur Legrand (1846-1916) – era sacerdote da Diocese de Soissons e foi também professor no Colégio São João.

O jovem Legrand conhecia Padre Dehon e foi convidado por ele a ingressar na Obra. Respondeu que não se sentia preparado. Esperou ainda dois anos, contudo após tomar a decisão, consagrou-se radicalmente a Deus no serviço ao jovem Instituto.

P. Mathias Maria Orfila Legrand (1849-1925) - Fundador da Escola de São Clemente, devoto de Santa Teresinha

Em uma carta escrita em 1920 ao amigo P. Victor Mailier, ele assim descreve a vocação: “Quero contar-lhe uma história antiga. Em 22 de agosto de 1879, às 11 horas da manhã, eu estava em meu escritório. Eu estava rezando e chorando, sem saber qual caminho eu deveria tomar. Queriam que eu me casasse com a irmã de uma Carmelita… Eu rezava, de maneira especial, à minha boa Mãe do céu; era a oitava de sua Assunção. Finalmente Jesus passou e me disse, como fez com São Mateus: “Segue-me”. E eu o segui! Eu tinha trinta anos de idade e trabalhava no Ministério das Finanças. Meus pais, que haviam descoberto que eu havia pedido demissão, ficaram consternados. Eu não conseguia olhar para eles sem chorar. Meu irmão, que era padre, não acreditava em minha vocação. Só encontrei apoio de meu tio, um verdadeiro Cura d’Ars. Eu não conheci ninguém em nosso Instituto que tivesse que passar por tal provação. Se uma vocação vale aquilo que custa, espero que a minha signifique algo diante de Deus e que sirva para a salvação almas. Deo gratias!” (AD. B. 21/2.i. inv. 353.07).

Em novembro de 1881, Mathias Legrand professou os votos com Stanislaus Falleur e foi nomeado Ecônomo da Casa Sagrado Coração. Desejava ser irmão, mas por obediência, preparou-se para o sacerdócio sob a supervisão do próprio Fundador e de outros sacerdotes. Foi ordenado em julho de 1884, sendo a primeira ordenação presbiteral após a crise do Consummatum Est.

Começou seu trabalho pastoral como capelão das Servas do Coração de Jesus, em São Quintino e, logo em seguida, foi nomeado diretor na Escola Apostólica São Clemente (Fayet).  É necessário recordar que o primeiro diretor da Escola – geograficamente muito próxima a São Quintino – foi P. Captier… Assim, os padres Falleur (segundo diretor, mas por pouco tempo) e Legrand tiveram muito trabalho para dar uma nova direção à Escola após os problemas com P. Captier (1883).

O colégio de Fayet foi o grande amor de sua vida e é por isso que se afirma que P. Legrand foi o “fundador” de São Clemente. Trabalhou ali por quase vinte anos, até 1903, quando a Congregação foi expulsa da França e a escola foi fechada. P. Legrand tinha feito de Fayet um centro de piedade e estudos. Um grande número de religiosos ingressou na Obra através daquela escola e tiveram o P. Legrand como primeiro formador.  Sua bondade era reconhecida pelos formandos e pelos pobres, que o chamavam de “bon père”. No segundo Capítulo Geral (1988) foi eleito Conselheiro Geral, cargo que ocupou até 1919.

Quando, em 1903, Fayet fechou suas portas e se transferiu para a Bélgica, Legrand permaneceu na Escola até 1917, sendo obrigado a fugir durante a guerra (cf. NHV 40/112). Sobre este momento, uma pequena curiosidade relatada em sua biografia encontra-se disponível nos Arquivos da Província Francesa: “Em 1870, quando a cidade de Laon caiu e os alemães, em seu compreensível pânico, atiraram naqueles de nosso povo que estavam ao seu alcance, o soldado Joseph Legrand conseguiu passar sem ferimentos pelas tropas inimigas e escapar ileso, graças à proteção de São José. No final da Grande Guerra [por volta de 1917], o bom Padre Mathias Legrand, evacuado junto com a população da região de São Quintino, conseguiu mais uma vez atravessar as linhas inimigas e se retirou, até o final da guerra, para Lisieux, para sua “santinha” que o havia protegido, ele que a amava tanto”.

Na carta enviada ao P. Victor Mailier, ele descreve a influência da espiritualidade de Santa Teresinha em sua vida: “Desde 9 de julho, entrei no meu 72º ano. Quero assegurar-lhes que estou pensando seriamente na minha grande viagem ao céu. Para me preparar, vivo uma vida de amor mais do que nunca. Faço todas as minhas ações, até as menores, preocupando-me apenas em agradar a Ele. Nesta condição, até o sofrimento se torna uma alegria, porque, como diz a pequena Teresa, “sofrer amando, é a mais pura alegria”. Eu, que nunca tive nenhuma pretensão, quero ir para o céu sem passar pelo purgatório. Não é uma coisa impossível, afirma a pequena Teresa, pois “o bom Deus não pode enviar ao purgatório a alma que Ele vê sempre ardendo em Seu amor”. Dando a Jesus todo o amor de que sou capaz, respondo à sua solicitação: “Tu, ao menos, me amas”, que também manifesta tão bem a grande dor de seu divino Coração” (cf. AD.B. 21/2.i. inv. 353. 07).

Em 1924, retornou à Escola Apostólica de São Clemente, então estabelecida em Blaugies, Bélgica, onde morreu em 13 de agosto de 1925, um dia depois de Padre Dehon.

Em 11 de maio de 1921, Padre Dehon enviou uma carta à Irmã Maria de Santo Inácio: “É verdade que continuamos sendo os últimos dos inícios da Obra. Os jovens não experimentaram as graças e provações de São Quintino, onde fomos conduzidos por meios providenciais… Em casa, temos o Padre Xavier, que se sacrifica muito bem […], e o Padre Mathias, que tem o espírito da Obra. Eles são os pilares da Congregação (LC1 23137).

O “espírito da Obra”, no modo como haviam aprendido os primeiros, era “um amor ardente e uma terna devoção ao Sagrado Coração de Jesus, cuja mansidão e humildade todos os Oblatos esforçar-se-ão para imitar (…)”. Esse propósito foi vivido pelo P. Mathias Legrand de diversas maneiras, mas sobretudo na dedicação à formação inicial, tornando-se o “pilar” da Escola Apostólica São Clemente (Fayet) por quase duas décadas. Com a dedicação de P. Legrand, Fayet cimentou-se como um dos alicerces do rápido desenvolvimento da Congregação ao fornecer princípios espirituais e intelectuais a gerações de sacerdotes. Podemos concluir com o testemunho do P. Ducamp – primeiro biógrafo do Fundador (1936) – que escreveu sobre esta simbiose fecunda entre Fayet e P. Mathias: “São Clemente era verdadeiramente a sua obra; de certo modo, ele continua vivo nesta Escola e quase todas as nossas províncias ainda têm membros que, ainda meninos, vieram até P. Mathias para buscar a educação e a instrução que os levaram ao sacerdócio e à vida religiosa”  (A. Ducamp, Le Père Dehon et son œuvre, 1936, p. 218).