Uma missão breve, um legado duradouro: a primeira presença SCJ no Equador (1888-1896)

P. Emerson Marcelo Ruiz, scj

Recentemente, inserido na moldura do período jubilar de 2025 a 2028, foi realizado um evento congregacional em Quito (9 a 14 de março): o Jubileu de Quito! A escolha da capital equatoriana se deve ao fato de ter sido o local da primeira missão ad gentes da jovem congregação, exatamente dez anos após sua fundação. Embora tenha perdurado apenas oito anos (1888-1896), a missão no Equador representa um marco fundamental na história do Instituto, sendo considerada o solo onde o sentido da missão foi progressivamente desvelado em nosso patrimônio carismático.

 

O início e a correspondência entre Padre Dehon e P. Matovelle

As tratativas para a missão começaram em 1887, quando Padre Dehon conheceu o trabalho do P. Julio Matovelle, fundador dos Oblatos do Divino Amor, pequena congregação equatoriana. O fundador sul-americano buscava uma fusão com um instituto europeu para salvar sua pequena congregação de uma crise de vocações. Após uma troca de cartas, em parte conservadas até hoje, em  outubro de 1887, Dehon afirmou que o objetivo de ambos era o mesmo: “o reinado do Sagrado Coração de Jesus nas almas e nas sociedades” e que a fusão era possível. Embora houvesse tensões iniciais sobre as prioridades – Dehon focava na reparação sacerdotal e Matovelle no reinado social do Coração de Jesus –, a fusão foi selada, impulsionada pelo recebimento do Decretum Laudis (1888).

A chegada e o início difícil

Em  novembro de 1888, os padres Gabriel Grison e Irineu Blanc partiram da França. O Padre Grison, em seu livro de memórias Souvenirs de l’Équateur, relata a desilusão ao desembarcarem em Guayaquil, em 5 de dezembro: ninguém estava no porto para esperá-los. Sem falar espanhol e sentindo-se abandonados, os missionários enfrentaram uma jornada de quatro dias a cavalo pelas cordilheiras até chegarem a Cuenca, onde se encontrava a sede da congregação do P. Matovelle, e se dedicaram ao aprendizado da nova língua e a pequenos trabalhos apostólicos.

 

O Drama da Basílica e a ruptura

Parte do projeto se concentrava na construção da Basílica do Voto Nacional em Quito, vista por Matovelle como a materialização do Reinado Social do Coração de Jesus. Contudo, um conflito eclesial e diplomático surgiu porque os Missionários de Issoudun já possuíam um contrato anterior para a obra, o que levou a  rescisão do contrato com a congregação de Matovelle, por extensão, com os discípulos de Padre Dehon, em julho de 1889. Devido a este episódio, somado a conflitos de autoridade entre os dois grupos religiosos, o P. Matovelle rompeu unilateralmente a união entre os institutos.

 

Atuação em outras cidades e a expulsão

Após a saída de Quito, os missionários colocaram-se à disposição do Bispo de Portoviejo, Mons. Peter Schumacher. A partir daí, os missionários estabeleceram frentes de trabalho em duas cidades: Bahía de Caráquez (para onde os dehonianos retornaram em 1996), e Ambato, onde assumiram a direção do Colégio Nacional Bolívar.

Tragicamente, a missão foi extinta logo depois, em decorrência da Revolução Liberal e anticlerical liderada por Eloy Alfaro, que havia tomado o poder através de um golpe. Em 12 de junho de 1896, o grupo de Bahía foi expulso por determinação do governo. Por sua vez, a saída de Ambato foi agravada por dificuldades de comunicação com São Quintino. De todo modo, a expulsão ocorreria em breve.

 

Frutos da missão: novas frentes e maturação carismática

Apesar do aparente fracasso, a experiência no Equador representou, na verdade, as “dores de parto” da dimensão missionária na jovem congregação. Aquele curto apostolado, por onde passaram 18 missionários, gerou frutos permanentes. Destacamos três:

a) Ponte para novas missões: a experiência equatoriana formou missionários que se tornaram pioneiros em outros continentes. Três merecem destaque: o P. Gabriel Grison fundou a missão no Congo (1897), o P. Gabriel Lux foi pioneiro no Sul do Brasil e o P. Déal no Norte do Brasil, onde não foi pioneiro, mas chegou logo após o início dos trabalhos (1893) e foi o superior daquela região por vários anos.

b) Compreensão do reinado “social” do Coração de Jesus: o contato com o Equador foi decisivo para Padre Dehon consolidar a doutrina do Reinado Social do Coração de Jesus, integrando a espiritualidade de reparação ao compromisso social prático e à transformação das estruturas. Foi especialmente de P. Matovelle que Padre Dehon absorveu a dimensão social do Reino do Coração de Jesus, tema presente em vários escritos sociais e de onde provém o título da revista fundada por ele em 1889: “Reino do Coração de Jesus nas almas e nas sociedades”. A cidadania desta expressão em nosso patrimônio carismático se verifica em sua presença em nossas Constituições (cf. Cst 4).

c) Legitimação eclesial: a resistência e o zelo demonstrados no Equador serviram como argumento para o posterior reconhecimento definitivo da Congregação pela Santa Sé (1906). Isto é, com a missão no Equador, a jovem congregação, que até aquele momento estava presente somente na França e na Holanda, se compreende como um Instituto com forte natureza missionária, a tal ponto que, na época da morte de Padre Dehon, 25% dos religiosos se encontravam em terras de missão.

 

Conclusão

Por todos estes elementos, a celebração em Quito, não se limitou a uma retrospectiva histórica, mas a um kairós para despertar as potencialidades apostólicas do Ecce Venio. Embora a missão no Equador possa ser vista como aparente  fracasso – brevidade da missão, expulsão, conflito de autoridades, projeto da basílica, etc. – é necessário sempre compreender tal expressão em analogia ao fracasso da cruz, que serve como régua e critério para avaliar adequadamente nossos projetos pastorais e apostólicos. Assim, 130 anos (1896-2026) depois da dolorosa conclusão daquele período missionário inicial, as sementes lançadas no “meio do mundo” seguem produzindo frutos e inspirando novos projetos.