P. José Gregório González (VEN)
Os primeiros oito números das nossas Constituições podem ser entendidos como um grande prólogo, ao estilo do Evangelho de João, onde encontramos concentrados os elementos essenciais desse Evangelho. Assim, Cst 3 faz parte deste prólogo do nosso texto constitucional e está enquadrado na experiência de fé de Padre Dehon, na qual o carisma foi encarnado. Para Padre Dehon, a fé é uma presença ativa que se experimenta na própria vida, uma experiência mística e apostólica que nos configura a Cristo. O texto afirma:
Nesse amor de Cristo, que aceita a morte
como doação suprema de sua vida
pela humanidade
e como obediência filial ao Pai,
é que Padre Dehon vê a fonte da salvação.
Do Coração de Jesus, aberto na cruz,
nasce o homem de coração novo,
animado pelo Espírito Santo
e unido aos seus irmãos
na comunidade de amor, que é a Igreja”
Para aprofundar a centralidade do amor de Deus manifestado no costado transpassado, tal como é apresentado em Cst 3, gostaríamos de propor três pontos para nossa reflexão: começar com a primeira afirmação do texto: “Neste amor de Cristo”, evidenciando a expressão mais evocativa do amor para Padre Dehon, depois deter-nos na “obediência filial ao Pai”, para concluir com o amor como “fonte da salvação”, isto é, o amor que regenera, porque na espiritualidade dehoniana o amor é sempre gerador de vida e salvação: o amor é reparador.
1. “Nesse amor de Cristo”
Nosso texto constitucional nos convida a dirigir nosso olhar para “esse amor” (cf. Cst 2), isto é, o lado transpassado do Salvador, em quem contemplamos a “expressão mais evocadora desse amor” (Cst 2), “um amor que, na doação total de si mesmo, recria o homem segundo Deus” (cf. Cst 21).
Toda a vida de Jesus foi uma vida oblativa, uma vida doada, entregue e dirigida ao Pai e aos seus irmãos e irmãs através da sua disponibilidade. Padre Dehon contempla no lado aberto a expressão mais elevada do amor, um amor que não pode deixar de se entregar a si mesmo. Amar até ao extremo não indica uma realidade temporal, mas um amor transbordante, um amor que ama até ao extremo porque não é possível amar mais. Padre Dehon afirma que “a Paixão é a obra-prima do amor do Coração de Jesus” (cf. CAM 2/11) e o ponto mais alto deste movimento de amor. É a este amor que se refere o início de Cst 3 quando diz: “Nesse amor de Cristo”. De fato, o movimento oblativo ou de união à oblação reparadora de Cristo ao Pai pelos homens só pode ser compreendido a partir do movimento do amor. Participar do amor oblativo de Cristo implica entrar nesta lógica do amor que se entrega até ao extremo. É interessante que no texto bíblico de Jo 19, no qual localizamos a imagem mais evocativa do amor, encontramos os elementos do sangue e da água, um duplo movimento de dentro para fora e de fora para dentro, um movimento místico e apostólico próprio do amor que não pode se fechar em si mesmo.
O biblista Ignace de La Potterie (cf. Il Costato Trafitto di Gesù, p. 641), após estudar a estrutura literária do texto da Paixão de Cristo, do Evangelho de João, afirma que tanto o sangue como a água que brotam do lado de Cristo são símbolos de vida, simbolizando, respectivamente, a vida de Jesus, sua interioridade e a vida da Igreja com o dom do Espírito, como podemos apreciar na seguinte tabela:
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Jo 19 |
v. 28 |
v. 30 |
v. 34 |
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Discurso narrativo |
Discurso narrativo |
Linguagem simbólica |
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Tema cristológico A vida de Jesus |
“Tudo está consumado” ⇐ |
“Está consumado!” ⇐ |
“Sangue” ⇐ |
Do exterior para o interior |
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Do interior para o exterior |
“Tenho sede” |
“Entregou o Espírito” |
“Água” |
Tema pneumatológico A vida da Igreja |
O sangue indica que “tudo está consumado”, a revelação de uma vida vivida totalmente em obediência ao Pai e a máxima manifestação do amor pelos seres humanos. “Tudo está consumado” expressa a forma mais elevada do amor (ápice), mais do que uma simples afirmação cronológica, é um “eu concluí, Pai, cumpri o que me encarregaste”, sendo assim o “tudo está consumado” um grito de vitória.
A água que brota do lado de Jesus é símbolo do Espírito Santo doado à Igreja, é a água viva que mana do seu seio e brota para a vida eterna. Enquanto o sangue nos remete para a vida de Jesus, para a sua interioridade e consciência, o Espírito, simbolizado pela água, conduz-nos à vida da Igreja.
O sangue e a água que brotaram do Transpassado são símbolos inseparáveis: a água, que simboliza o Espírito Santo, torna presente na história, na Igreja, a vida de Jesus e seu profundo desejo de realizar o projeto do Pai, desejo que é simbolizado pelo sangue. Tanto o sangue quanto a água simbolizam a vida, a vida nova que brotou do lado de Jesus. No sangue contemplamos a vida de Jesus e na água o seu Espírito que dá vida à Igreja, o sangue e a água são inseparáveis, tal como o são o amor e a reparação. No duplo movimento dos símbolos do sangue e da água fundamenta-se a nossa mística da ação, ou seja, o nosso movimento para a união com Deus e, em Jesus, para o mundo, a missão.

Para concluir este primeiro ponto, citamos uma frase extraída da obra Coração sacerdotal de Jesus, na qual Dehon afirma que o que repara é o amor, ou seja, a reparação brota e é precedida por ele: “A reparação nasce do amor e da gratidão como o fruto nasce da flor” (CSJ 11). A afirmação da nossa Regra de Vida “Nesse amor de Cristo” nos convida a levantar os olhos para a máxima expressão do amor manifestado no lado aberto do Salvador (cf. Jo 19,37) e no duplo movimento dos símbolos do sangue e da água, no qual se fundamenta a nossa mística da ação.
2. “Como obediência filial ao Pai”
A experiência espiritual em Dehon é, antes de tudo, uma abertura ao amor de Deus, uma vida vivida como um dom ao Pai e aos homens, seus irmãos. A obediência só tem sentido no amor, por isso em Padre Dehon a obediência filial, o fiat (a confiança) e o abandono (a oblação) se entrelaçam no Ecce Venio. Sem a experiência fundadora do amor, da comunhão com Deus e com os irmãos, dificilmente poderemos falar de uma verdadeira obediência.
A experiência cristã é um caminho que progressivamente nos torna livres, porque somente onde há liberdade há amor, que é um dom gratuito e a fonte da obediência cristã, que transcende o cumprimento de uma lei ou o cumprimento de uma ordem. A obediência é comunhão, abertura e disponibilidade. Mesmo nos momentos mais difíceis da nossa vida, se nos sentimos amados, é possível obedecer e oferecer a nossa disponibilidade até ao fim. A obediência brota da confiança que nos faz dizer com Jesus: “Está consumado” (Jo 19, 34). O adjetivo “filial” – de obediência filial – qualifica o modo da nossa obediência, uma obediência que brota da comunhão com Deus e com os irmãos. O Ecce Venio é fruto da experiência do amor.
Ecce Venio é uma expressão muito presente nos escritos de Dehon. Nas notas sobre O espírito da Obra (1877-1881), ele escreve:
“Nestas palavras: “Ecce Venio, Deus, ut faciam voluntatem tuam” [Hb 10,7], e nestas outras: “Ecce ancilla Domini, fiat mihi secundum verbum tuum” [Lc 1,38], encontram-se toda a nossa vocação, nosso objetivo, nosso dever, nossas promessas.
Em todas as circunstâncias, em todos os acontecimentos, tanto para o futuro como para o presente, basta o Ecce Venio, desde que esteja no pensamento e no coração, ao mesmo tempo que nos lábios. “Ecce Venio”: aqui estou, ó meu Deus, para fazer a tua vontade. Estou disposto a fazer, a empreender, a sofrer o que tu quiseres, a sacrificar o que tu me pedires.
Não devemos nos preocupar, a vontade de Deus se manifesta a cada instante e, mesmo que a escuridão e a incerteza encham nossa mente e nosso coração, perseveremos com paciência e amor neste estado, até que a sabedoria e a bondade de Deus decidam fazer brilhar novamente sua luz. (INE 914001).
O Ecce Venio em Padre Dehon não é apenas um lema, mas uma experiência fundamental, pois é uma resposta ao amor de Deus e uma abertura aos outros (Sint Unum) e uma cooperação ou solidariedade diante dos apelos do mundo (Adveniat Regnum Tuum). O Ecce Venio é a atitude fundamental de Jesus:
“Toda a sucessão da vida… não foi mais do que o desenvolvimento e a execução deste primeiro ato. Jesus está inteiramente neste Ecce Venio, com todo o seu Coração, todo o seu amor, todos os seus méritos, todos os seus mistérios futuros. Eu venho, exclama ele, vou para Nazaré, para o presépio, para o exílio, para a minha vida oculta, para a minha vida pública, para o meu apostolado, para as perseguições, para a minha agonia, para a cruz, para o sepulcro: Ecce Venio. Ele previu tudo, aceitou tudo e, por assim dizer, cumpriu tudo antecipadamente neste único ato” (CAM 1/65).
Para Padre Dehon, o Ecce Venio de Jesus é uma disponibilidade total que brota do amor ao Pai e a nós, seus irmãos. O Ecce Venio em Jesus é uma resposta de amor, uma atitude fundamental. Sem a experiência do amor não há uma verdadeira experiência do Ecce Venio, da obediência, essa atitude faz da vida de Jesus uma entrega total de si mesmo. O Ecce Venio, a obediência, é um caminho de plenitude humana, um caminho de dar vida com a própria vida. Somos chamados a viver o Ecce Venio como disponibilidade, como dom (oblação) e como cooperação: “Nossa oblação deve ser, à semelhança da de Nosso Senhor, generosa, total e eterna. Generosa e pronta: Nosso Senhor não esperou para pronunciar o seu “Ecce Venio: ingrediens mundum”, desde o primeiro instante da sua concepção, entrega-se totalmente a Deus. Assim, não mais hesitações, não mais demoras” (CAM 1/67).
O nível mais alto do Ecce Venio, da obediência, é a entrega total da vida por amor. Para mergulhar nessa dinâmica, é necessário um caminho de amizade com o Coração de Jesus, é necessário entrar em seu Coração através do lado aberto e sair renovados, participar do duplo movimento de interioridade, mística e ação, como foi demonstrado anteriormente. O Ecce Venio, se não for movido pelo amor, não é autêntico ou, pelo menos, não é vivido com o mesmo espírito com que Jesus de Nazaré o viveu.
3. A modo de conclusão: “A própria fonte da salvação”
Em nosso texto constitucional, amor e reparação são inseparáveis. Desde os primeiros capítulos, fica evidente o centro de onde brota o carisma dehoniano: o amor de Deus manifestado em Jesus Cristo, cujo lado traspassado é a máxima expressão desse amor, fonte da salvação (Cst 2-3). Esta dupla irá se desenvolvendo ao longo de toda a Regra de Vida, por isso afirmamos que os primeiros oito números são como uma espécie de prólogo no qual encontramos os elementos fundamentais.
Um sinônimo do amor de Cristo em nosso texto constitucional é a palavra oblação. Na verdade, ali não se define o que é oblação, mas ao falar da oblação o texto afirma que somos convidados a “inserir-nos no movimento do amor redentor” de Deus manifestado em Jesus Cristo (Cst 21). A oblação é um amor que, ao se doar totalmente, recria, repara e regenera (cf. Cst 20). O binômio de Cst 3 – “neste amor de Cristo […] fonte da salvação” – alude a palavras semelhantes como: “oblação reparadora” (Cst 6), “amor redentor” (Cst 21), “amor que regenera” (Cst 20).
O centro do carisma dehoniano é o Coração de Cristo, o seu amor que, por um lado, nos abre o acesso à comunhão trinitária e, por outro, nos impele simultaneamente para a comunhão com os seres humanos: para o Reino. Para Padre Dehon, portanto, tudo gira em torno do Coração de Cristo, o Verbo encarnado, Aquele que, em sua ferida externa e visível, nos fez descobrir a interna, a ferida do amor que torna presente o reino através de sua força de atração: “Quando for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32).
Em suma, a reflexão sobre a Cst 3 revela que o carisma dehoniano encontra sua força vital no amor de Cristo manifestado no lado aberto, reconhecido por Padre Dehon como a fonte suprema da salvação. Esse amor, simbolizado pelo sangue e pela água, fundamenta uma mística da ação que une a interioridade da obediência filial – o Ecce Venio – ao compromisso apostólico reparador de regenerar a humanidade. Assim, a identidade dehoniana se consolida na indissociabilidade entre amor e reparação, impelindo cada membro da família dehoniana a uma doação que, centrada no Coração de Jesus, busca simultaneamente a comunhão trinitária e a edificação do Reino.