Editorial inFormativo CELDE 04

Março: mês do “Ecce Venio”

Foto: Luiz Henrique Z Ciarini.

O mês de março reveste-se de particular relevância na história de Padre Dehon, sendo frequentemente mencionado em suas Memórias (NHV) e Diário (NQT) devido às datas marcantes em sua vida pessoal e institucional. É o mês de seu nascimento e de seu batismo (24 de março). O mês também é permeado por episódios de luto ou de ressurreição, como o falecimento de sua mãe em 19 de março de 1883, no dia de São José, e da “Chère Mère” (fundadora das Servas) em 17 de março de 1917, além da morte de seu diretor espiritual em Roma, P. Freyd, ocorrida em 6 de março de 1875. No âmbito institucional, recorda-se o dia 29 de março de 1884, celebrado como uma “pequena ressurreição” da Congregação, pois nesta data foi publicado o decreto de Roma que consolidou a renascimento da Obra o após a breve extinção através do Consummatum est.

Acerca do batismo de Padre Dehon recordamos o texto de suas Memórias: “Fui batizado no dia 24 de março, na pobre igreja de La Capelle, pelo digno e respeitado P. Hécart […] Era, acima de tudo, a primeira véspera da festa da Anunciação. Mais tarde, fiquei feliz por unir a lembrança do meu batismo à do Ecce Venio de Nosso Senhor. Essa aproximação me deu muita confiança. O Ecce Venio do Coração de Jesus protegeu e abençoou minha entrada na vida cristã. Nosso Senhor certamente não me culpará por ver nisso uma atenção de sua Providência em vista da minha atual vocação de Sacerdote-Hóstia do Coração de Jesus. Sempre tive uma veneração pela lembrança do meu batismo. […] Em cada uma das minhas férias, fazia uma peregrinação piedosa às fontes sagradas do meu batismo […]” (NHV 1/2).

Em diversos escritos, como no final de sua vida (cf. NQT 45/68), Padre Dehon destaca a relação entre o batismo e o Ecce Venio com base nas Vésperas da Anunciação. Em outras palavras, a inserção de Padre Dehon no corpo místico de Cristo ocorreu sob o signo do Ecce Venio, que representa e sintetiza toda a trajetória do Fundador, caracterizada por obediência filial, amor oblativo e pela alegre disponibilidade ao Reino do Coração de Jesus. É possível afirmar Ecce Venio plasma toda a biografia de Padre Dehon, conforme reconhecido pelo próprio autor:

“Nestas palavras: “Ecce Venio, Deus, ut faciam voluntatem tuam” [Hb 10,7 […] encontram-se toda a nossa vocação, nosso objetivo, nosso dever, nossas promessas.  Em todas as circunstâncias, em todos os acontecimentos, tanto para o futuro como para o presente, basta o Ecce Venio, desde que esteja no pensamento e no coração, ao mesmo tempo que nos lábios. “Ecce Venio”: aqui estou, ó meu Deus, para fazer a tua vontade. Estou disposto a fazer, a empreender, a sofrer o que tu quiseres, a sacrificar o que tu me pedires” (INE 914001).

Assim, a partir desta moldura de março como Mês do Ecce Venio, este quarto número do InFormativo CELDE estrutura-se a partir desta fecunda expressão carismática.

Na seção “Conhecendo a nossa Regra”, o artigo “Neste amor de Cristo”: a “fonte da salvação” segundo Cst 3”, o autor, P. José Gregório González (VEN), nos conduz por uma imersão no coração da identidade dehoniana através da análise de Cst 3. O texto nos coloca diante do coração aberto do Salvador, onde o sangue e a água revelam a articulação entre a interioridade mística e a da missão apostólica. Ao entrelaçar a obediência filial do Ecce Venio com a força reparadora que “nasce do amor como o fruto nasce da flor”, o autor provoca o leitor a compreender a reparação como uma presença ativa que nos configura a Cristo e nos impele para o Reino. 

Na seção “Escritos do Fundador”, o artigo de P. Victor Barbosa – O verdadeiro “código carismático” dos Dehonianos – apresenta a obra Diretório Espiritual, de Padre Dehon, publicada em 1919 e considerada como o verdadeiro “código carismático” da Congregação. O texto indica algumas fontes da obra, uma descrição do seu conteúdo e uma análise da atualidade dessa obra para a família dehoniana, mais de um século após sua publicação, apontando critérios para a sua leitura hoje.

Na seção “Nossas origens” abordamos a trajetória de Joseph Paris (1858-1941), um dos pioneiros da Congregação, marcado por um temperamento ardente e uma doação integral à Obra. Entre desafios acadêmicos e “pequenas humilhações”, sua história revela que a santidade não exige a ausência de falhas, mas a integridade de uma vida demarcada pelo Ecce Venio. Conheça o professor de moral que “falava o que pensava” e que se manteve fiel na devoção ao Sagrado Coração. 

Na seção “Atualidades” encontramos duas notícias. A primeira – “Peregrinação, Memória e Missão: celebrando o nascimento de Padre Dehon em Quito” – apresenta uma série de informações sobre o encontro jubilar que reunirá a Família Dehoniana no Equador entre 9 e 14 de março de 2026. Celebrando a primeira missão ad gentes da Obra na moldura do período jubilar (2025-2028), este evento promove reflexões sobre o compromisso social e a identidade missionária sob o lema “Adveniat Regnum Tuum”

No segundo texto, é desvelada a simbologia do logo do VII Seminário Teológico Dehoniano Internacional, cujo tema será “Padre Dehon em seus textos” e acontecerá em Taubaté entre 30 de julho e 4 de agosto de 2026. O logo, elaborado pelo P. José Ronaldo, é fruto de síntese contemplativa onde novos traços do rosto do Fundador emergem de seus escritos, unindo o legado do Fundador codificado em livros e as pesquisas teológicas da Congregação por ele fundada. É uma leitura essencial para compreender como a herança literária de Padre Dehon permanece viva, impulsionando a missão no “hoje de Deus” (Cst 147).

Desejamos a todos uma boa leitura.

P.Emerson M. Ruiz, scj
Diretor do CELDE