Cst 2: a experiência fundante do carisma dehoniano

Como a experiência de fé de Padre Dehon permanece critério de identidade e fidelidade hoje

P. José Valdinã Santos de Jesus, scj

A riqueza teológica-espiritual das nossas Constituições merece, da nossa parte, sempre uma abordagem mais atenta e acurada. Sabemos da importância da experiência pessoal do nosso venerável fundador, Padre Dehon, em sua vida de fé (cf. Cst 1-8) para os albores da nossa congregação “suscitada pelo Espírito” (Cst 1). Nosso intuito neste texto, contudo, é fixarmos nosso olhar em Cst 2 dentro deste quadro introdutório da primeira parte das nossas Constituições (Cst 1-8) a partir do espectro carismático do Fundador. Eis a seção que iremos estudar:

 

Nosso Instituto tem sua origem

na experiência de fé vivida por Padre Dehon.

É a mesma experiência que São Paulo exprimiu assim:

Minha vida presente na carne,

eu a vivo pela fé no Filho de Deus

que me amou e se entregou

a si mesmo por mim (Gl 2,20).

O Lado aberto

e o Coração transpassado do Salvador

constituem para Padre Dehon

a expressão mais evocadora daquele amor

cuja presença atuante

ele experimenta em sua própria vida”.

 

Se no primeiro número (Cst 1) foram abordados o dom e a missão do Instituto oriundos do Espírito,  dentro de um contexto histórico específico de sua fundação e com todas as suas complexidades, no segundo número adentramos a uma espécie de afunilamento ou interioridade. Ou seja, partimos de uma visão geral e sintética para mergulhar na profundidade da experiência espiritual que alicerçou a Congregação em seus primórdios.

O objetivo de nossa análise é encontrar a definição da “experiência de fé vivida por Padre Dehon”, que é a “origem de nosso Instituto”. No entanto, antes de realizar essa tentativa, é necessário destacar alguns elementos lexicográficos que retornam algumas vezes entre os números 2 e 5 das Constituições. Isso pode ser verificado pelo estudo das palavras mais frequentes neste texto:  experiência (3 vezes); amor/amar (6 vezes); fé (2 vezes); coração (5 vezes); Cristo (4 vezes), além de outros termos cristológicos; Igreja (3 vezes).

Partindo apenas deste aparato lexicográfico, deduz-se que a “experiência de fé” é uma realidade ligada a uma pessoa, em um contexto histórico, marcada por elementos volitivos e emocionais (realidades constitutivas da natureza humana) e por um vínculo profundo com uma comunidade de fé. Em seu íntimo, Padre Dehon viveu uma dimensão relacional com um Deus trinitário, que também manifestou sua interioridade, ou seja, seu Coração, na iniciativa primordial de amar e de receber uma resposta de amor.

Todavia, antes de conceitualizar a “experiência de fé de Padre Dehon”, é importante ressaltar que ele não foi apenas o fundador de uma instituição religiosa, mas um “pai carismático”. Segundo P. Alfredo Carminati, isto significa que a vida e a história da Congregação estão ligadas à graça das origens, ao carisma do fundador. Obviamente, sua experiência pessoal, íntima e contextualizada não é reproduzível, mas seu conteúdo e seu exemplo, continuam a ser de vitalidade para os membros da Congregação. Segundo P. Giuseppe Manzoni, o n. 2 de nossas Constituições mostra que a experiência de fé de Padre Dehon tem um “valor constitutivo”.

Padre Dehon e as Constituições (por volta de 1918).

Padre Dehon e as Constituições (por volta de 1918).

Para P.  André Bourgeois, três são as fórmulas que condensam a experiência de fé de Padre Dehon segundo as Constituições: a) Cristo com sua presença amorosa atuante na vida de Dehon (n. 2); b) a sensibilidade à rejeição do amor de Cristo (n. 4); c) a vontade de corresponder ao amor desconhecido com uma adesão a Cristo que vem da intimidade do coração (nn. 4-5).

No contexto de Cst 2, especialmente devido à referência a Gl 2,20, observa-se que Padre Dehon adotou uma postura de obediência filial, estabelecida e conquistada pelo próprio Cristo, que manteve constante conformidade à vontade do Pai ao longo de sua vida terrena. Essa é, portanto, a chave de leitura para conceituar a experiência de fé na vida de Padre Dehon: foi-lhe possível entrar numa dinâmica vital do “sim” ao Pai, por Cristo, no Espírito, somente porque ele experimentou no lado aberto, no Coração traspassado do Salvador (cf. Jo 19,31-37), uma realidade profunda: aquela de “ser amado”. Ele vivenciou a experiência de um amor ativo, que toma a iniciativa, que veio primeiro ao homem, para que fosse possível criar um espaço de diálogo com Deus através da resposta de amor, do “sim”, da obediência, do cumprimento da vontade divina.

Segundo P. Umberto Chiarello, a experiência de fé de Padre Dehon, dessa forma, nos indica a importância da devoção ao Sagrado Coração de Jesus como uma realidade que vai além de aparatos externos e superficiais da prática devocional, e que se apresenta como um “projeto humano”, como uma verdadeira espiritualidade que dá um sentido transcendental à vida. É nesse sentido que, segundo as nossas Constituições, torna-se “propriedade” de Padre Dehon a experiência paulina de Gl 2,20: “Minha vida presente na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus que me amou e se entregou a si mesmo por mim”.

Em suma, a experiência de fé descrita em Cst 2 se configura como alicerce vivo que define a identidade dehoniana como uma resposta existencial ao amor redentor. Ao mergulhar na profundidade do Coração transpassado, o religioso dehoniano é convidado a transcender qualquer estampa de devoção superficial para assumir, como Padre Dehon, a dinâmica paulina do “sim”, de obediência ativa e da entrega total a Deus no cotidiano. Assim, Cst 2 permanece como a bússola espiritual que nos recorda que nossa missão “frutifica” (Cst 1) quando enraizada na certeza de sermos amados, transformando cada história dehoniana em um prolongamento da obediência filial e do amor atuante do Coração de Jesus no mundo.