Um guia de formação para os superiores
P. Emerson Marcelo Ruiz, scj
“Pequeno Diretório para Reitores” (PDR) é uma pequena obra publicada por Padre Dehon em 1919, mas também chamada no manuscrito de “Superiores segundo o Sagrado Coração”. Enquanto o primeiro título enfatiza seu caráter canônico, o segundo destaca a abordagem de liderança proposta por Padre Dehon, fundamentada no amor ao Coração de Jesus. Trata-se de um diretório, quase um “vade-mécum” composto por meditações e muitos conselhos práticos para um superior de comunidade religiosa.
O texto foi publicado no mesmo ano da última edição do Diretório Espiritual (DSP). Assim, é possível imaginar que esta obra também tenha sido escrita durante os “tristes anos da guerra” (DSP 482), quando Padre Dehon ficou por três anos quase isolado em São Quintino e teve uma rica e complexa experiência de vida fraterna.

A obra é composta de cinco capítulos:
1 – Os superiores de acordo com nossas Constituições (PDR 1-2), onde o autor apresenta os elementos da legislação particular naquilo que se referia ao superior de comunidade. Trata-se da parte canônica do PDR.
2 – Os superiores de acordo com o Sagrado Coração, segundo o Bem-aventurada Margarida Maria (PDR 3-9). Neste capítulo, Padre Dehon busca na “bem-aventurada” (ele sempre a nomeia deste modo pois foi canonizada somente em 1925) os fundamentos para que o Coração de Jesus seja verdadeiramente o superior na casa dos “Oblatos”. O fundador destaca que Jesus está no centro dos atos de governo, afirmando que os superiores são meros representantes de seu amor: “Nosso Senhor Jesus Cristo é o único superior e aqueles que levam esse nome devem considerar-se apenas como seus delegados e, de certa forma, como os sacramentos do seu amor, mais ainda do que da sua autoridade divina” (DPR 3). Padre Dehon insiste sobre os ensinamentos que a beata deixou acerca dos a) sentimentos que devem animar os superiores em relação ao seu cargo (DPR 4), e b) sobre a maneira de governar segundo o espírito do Sagrado Coração (DPR 5-9).
3 – Os deveres de um superior (PDR 10-22) é o capítulo mais longo. Esta seção apresenta os deveres do superior como uma missão essencialmente espiritual e paterna, recebida de Deus, na qual ele é chamado a agir como pai e diretor das almas que lhe foram confiadas. O fundador discorre sobre os quatro deveres de um superior: “amar seus filhos, edificá-los, instruí-los, corrigi-los”. Amar, mediante uma caridade paciente e misericordiosa; edificar, oferecendo o testemunho de uma vida fiel à regra e unida a Deus; instruir, alimentando os religiosos com sólida doutrina e acompanhamento pessoal; e corrigir, sempre com finalidade medicinal, buscando não punir, mas santificar.
O texto afirma que a autoridade se torna eficaz ao ser fundamentada na conexão com o Coração de Jesus e exercida com a serenidade característica da maturidade pessoal. Em um contexto marcado por fragilidade vocacional, resistência à autoridade, personalismos, mudanças culturais e desafios comunitários, as diretrizes de Padre Dehon, corretamente interpretadas, continuam atuais, sobretudo quando recordam que somente a liderança enraizada na oração e no testemunho pessoal contribuem para comunidades fraternas e fiéis ao carisma. É especialmente interessante notar como Padre Dehon se dirige de maneira paternal em DPR 21 ao tratar da “correção” de um confrade. Atualmente, esse texto pode ser entendido como ricas recomendações para diálogos difíceis, mas necessários, sempre guiados pela humanidade e pelo senso de dever que é próprio de um superior.
4 – Máximas de São Vicente de Paulo (PDR 23) é uma pequena seção que se resume a um número com dez frases de São Vicente sobre a Vida Fraterna em comunidade. Alguns exemplos: [5] “Nada é mais prejudicial para uma comunidade do que ser governada por superiores que são fracos demais, que procuram agradar e fazer com que sejam amados”; [9] “É mais fácil prevenir os abusos do que reformá-los”.
5 – Conselhos aos superiores (PDR 24), embora breve, é possivelmente a seção mais rica do Diretório pois é o extrato de uma Carta Circular publicada em outubro de 1892 (cf. LCC 115118/11-12). A frase inicial da carta mostra que o ofício de superior encontra seu eixo na oração: “Vocês devem àqueles que lideram o exemplo, a oração e o sacrifício. Os patriarcas ofereciam a Deus um sacrifício todas as manhãs para garantir que seus filhos não caíssem em pecado (Jó 1,5). Você deve orar todos os dias por todos em sua casa. Você deve oferecer a Deus por eles o sacrifício de suas mortificações e imolações diárias” (DPR 24).
Este pequeno diretório mostra a sua atualidade ao evidenciar a preocupação de Padre Dehon com a formação dos superiores: orienta sobre o modo de corrigir, pede paciência e atenção com os idosos, indica bibliografias, ensina a conversar e, sobretudo, está ancorado pelo grande senso prático que sempre o norteou e que também deve dirigir cada superior dehoniano junto à sua comunidade religiosa.
Em um momento em que o papel da autoridade religiosa são questionados, esta obra possui atualidade. O texto foi recentemente traduzido para o português brasileiro e o arquivo se encontra no site do CELDE.