“Nossos irmãos mais velhos” (Cst 16):
conhecendo as origens de nossa família religiosa
P. Emerson Marcelo Ruiz, scj
Com este artigo iniciamos uma série de reflexões que nos levarão a mergulhar na bela história de nossa congregação. Nesta jornada seremos conduzidos por luzeiros muito especiais: os primeiros discípulos de Padre Dehon, os nossos irmãos mais velhos! As nossas Constituições possuem um número excepcional para referir-se aos pioneiros da Obra. Trata-se de Cst 16:
“Chamados a servir a Igreja na Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus, nossa resposta supõe uma vida espiritual: uma comum abordagem do mistério de Cristo, sob a direção do Espírito, e uma atenção particular àquilo que, na inesgotável riqueza desse mistério, corresponde à experiência de Padre Dehon e dos primeiros membros da Congregação” (Cst 16).
A Regra nos convida a buscar uma aproximação comunitária (chamados) ao mistério do amor de Cristo na experiência de fé do fundador, tesouro exposto nas linhas precedentes da Regra (cf. Cst 2-8), mas não só! Nosso código fundamental nos instiga igualmente a “uma atenção particular” à vida dos “primeiros membros da congregação” pois também no testemunho destes pioneiros encontramos um reflexo carismático da riqueza do mistério de Cristo.
Portanto, o estudo dos primeiros seguidores de Padre Dehon não nasce de uma legítima curiosidade histórica ou de uma busca por biografias esquecidas, mas de uma obediência às nossas Constituições (Cst. 16) uma vez que na investigação acerca do papel dos primeiros discípulos de Padre Dehon emerge o tema da recepção dinâmica do patrimônio carismático, tarefa dos dehonianos de todos os tempos (cf. Cst 17). Na experiência de fé de Padre Dehon e dos nossos precursores há um reflexo da “inesgotável riqueza” do mistério do Coração de Jesus.

Padre Dehon junto aos noviços em Sittard em 1909. Ao lado esquerdo de Padre Dehon se encontra o Mestre de Noviços, o P. Conrad Wiese.
Acreditamos que a vida e a ousadia dos primeiros oblatos indicam pistas preciosas para viver a reparação, muitas vezes experimentada por eles “como oferenda dos sofrimentos suportados com paciência e espírito de abandono, mesmo nas trevas e na solidão” (Cst 24). No desprendimento dos pioneiros é possível discernir uma “alegria espiritual e uma firme vontade de servir a Deus e aos irmãos” (cf. Cst 85). Estudar nossas origens é uma idealização ou busca de um “mito das origens”, mas da justa compreensão da relação entre carisma e história, do adequado acolhimento ao dom de Deus em cada estação epocal.
Os textos em língua portuguesa (Brasil e Portugal) de Cst 16 utilizam a expressão “primeiros membros da Congregação”. Algumas traduções empregam termos semelhantes: “our predecessors” (inglês), “nostri primi religiosi” (italiano). Entretanto, na língua francesa (edição típica) temos um vocábulo mais rico: “nos aînés”, que pode ser traduzido por veteranos, irmãos mais velhos, sêniores etc. Acertadamente, a versão espanhola empregou “nuestros mayores” (anciãos, antepassados, mais velhos). Isto é, o texto francês e espanhol utilizam uma formulação mais próxima do ambiente familiar. Não se trata somente de ser o primeiro em uma linha cronológica, mas de “primeiro” em contexto de maturidade, família, fundamento, tradição. Nestes irmãos mais velhos, nós, os mais jovens, encontramos lições sobre a vida religiosa e nossa herança espiritual.
Contemplando nosso álbum de família, visitaremos a história dos primeiros em uma acepção de fundamento: aqueles que foram colocados primeiramente no alicerce. Não elencaremos somente os mais conhecidos (como os padres Falleur e Rasset), mas apresentaremos personagens que estiveram desde o início com o Fundador, perseveraram até o fim e são raramente lembrados. Não serão longas biografias, mas uma concisa exposição de como nossos precursores viveram a imolação como dedicação cotidiana à nossa família.
Contemplando os percalços destes confrades nos deparamos com a própria história do instituto, pois visitamos as obras, os projetos e os apostolados do início. Assim, iremos conhecer os primeiros… O primeiro ecônomo geral, o primeiro professor, o primeiro diretor da Escola São Clemente ou o primeiro pároco…
Acreditamos que, por meio da divulgação destes textos, fazemos um tributo reparador aos nossos irmãos mais velhos, além de oferecer em língua portuguesa uma formação histórica que nutre a nossa pertença. Neste período jubilar, em que nos preparamos para celebrar os 150 anos da fundação da Obra (1878-2028), o conhecimento e o reconhecimento da oblação vivida pelos primeiros fortalecerá nossa pertença ao projeto de Deus confiado a Padre Dehon.