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Fenomenologia e Edith Stein são tratados no Café Filosófico

Publicado em: 06/06/2017 por


A terceira edição do Café Filosófico deste ano, promovido pela Extensão Universitária da Faculdade Dehoniana, aconteceu na última segunda, 22. Ministrada pelo Prof. MSc Eduardo Dalabeneta,  a proposta era apresentar a investigação filosófica de Edith Stein a respeito da origem da linguagem.

Filósofa alemã, Edith Stein nasceu no final do século XIX e veio a falecer aos 51 anos no campo de concentração nazista de Auschwitz-Birkenau. Ela foi uma das primeiras mulheres a participar do meio acadêmico, podendo frequentar uma universidade na Alemanha. “Isso traz grandes características para o pensamento dela, de ser sempre um pensamento de vanguarda”, ressaltou o professor.

Segundo Dalabeneta, para entender a filosofia da alemã é preciso compreender a Fenomenologia, movimento filosófico criado pelo também alemão Edmund Husserl, que foi professor de Stein e a influenciou em seus pensamentos.

“Esse percurso [entender a Fenomenologia] é importante, porque o problema da linguagem que a Edith Stein vai tentar entender, ela lerá com as categorias ‘Husserlianas'”, afirmou. De acordo com Dalabeneta, Husserl dizia que normalmente as pessoas veêm o que querem e não o que realmente as coisas são, por isso ele busca reformar o jeito de se fazer conhecimento na época.

“Ele pensa num método, que descreve de modo originário o voltar às essências, ‘voltar às coisas mesmas’ que aparecem para nós. A este movimento, Dalabeneta explicou que Husserl chamou de “redução eidética”, que significa “colocar de lado todos os pré-conceitos, pré-formações, porque elas podem ofuscar o que de fato as coisas são”. Além desta primeira redução, o professor atentou a segunda redução proposta por Husserl, a “redução transcendental”, ou seja, a redução ao sujeito que conhece, ao eu puro.

Partindo da Fenomenologia, Edith Stein analisa a linguagem, fenômeno estritamente humano, aplicando as reduções de Husserl. “O que se mostra é que a linguagem manifesta um princípio de comunicabilidade entre sujeitos, isso significa que esses sujeitos interagem”.

Segundo o professor, a filósofa vai dizer que a linguagem deve ser investigada antes como uma questão de dentro do ser humano. “Nós, como objetos [de pesquisa], sempre manifestamos como sujeitos expressantes”, disse Dalabeneta que explicou a existência de uma dupla polaridade, onde sempre vai existir, na parte mais profunda do ser humano, uma consciência e diante desta consciência sempre se mostrarão verdades.

“O que surge desse encontro de consciência e verdade, esse processo de doação e de enformação, é uma expressão técnica chamado ‘estado de coisa'”. Uma vez que a verdade que foi acolhida pela consciência, é retida no fluxo dela, sem sofrer alterações.

“A verdade enformada [‘estado de coisa’] ao ser atravessada por um ato de significação tem desentranhada uma forma lógico-categorial vazia (palavra pura) que pode receber os possíveis e diversos preenchimentos empíricos, psíquicos ou culturais atuais ou possíveis”.

Segundo o professor, é neste território primordial, chamado em “fenomenologia de região antepredicativa”, que nasce a palavra e o lugar de ancoragem da linguagem como um fenômeno intersubjetivo.

“Ou seja, quando uma consciência está diante da outra há uma solicitação para se ter acesso a esse mundo constitutivo, ao conhecimento enformado, etc”. Por causa disso, a linguagem se torna um lugar de encontro (mas também de possíveis desencontros) entre as pessoas, um mundo que cresce com os sujeitos e permanece para além das individualidades como um patrimônio da humanidade.

Para concluir, Dalabeneta finalizou o Café Filosófico com a declamação do poema “O espírito das línguas” de Adélia Prado:

A propósito de músicos, ginastas, coreógrafos
digo na minha língua:
PUXA VIDA VAI SER ARTISTA ASSIM NO INFERNO
É português como se fora russo.
Descuidada de que me entendam ou não,
falo as palavras,
para mim também e primeiro
incompreensíveis.
As artes falam humanês,
também as caras dos homens
escrevem o mesmo código.
O que é PUXA VIDA
VAI SER ARTISTA ASSIM NO INFERNO?
Só expressam as línguas nas clareiras
que o choque de uma palavra abre na outra.
Na Bulgária, certamente traduz-se PUXA VIDA
por BERIMBAU! FILIGRANAS DE RENDA!
Compreender o que se fala
é esbarrar na sem-caráter,
inominável, corisca poesia.

 

Para aprofundamento: “A origem da palavra nos parágrafos 2 e 3 do manuscrito Palavra, verdade, sentido e linguagem de Edith Stein

http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/seminario-internacional-de-antropologia-teologica/assets/2016/12.pdf

 

Você pode conferir o Café Filosófico sobre a Edith Stein completo aqui neste vídeo:

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